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sábado, 1 de janeiro de 2011

Duas Espécies de Justiça – Martinho Lutero



“Sermo de duplici iustitia, 1519”


O sermão sobre as duas espécies de justiça é uma amostra das tentativas de Lutero no sentido de comunicar ao povo as verdades redescobertas nas obras do apóstolo Paulo e Santo Agostinho. Não se sabe ao certo quando Lutero proferiu o sermão. O texto da Epístola aos Filipenses 2.5-8 sugere o Domingo de Ramos de 1518 ou 1519. Publicado pela primeira vez em 1519, na casa editora de Johann Grünenberg.

Irmãos, “tenham em vocês o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus”. (Filipenses 2.5s)

A justiça dos cristãos é de duas espécies, como é de duas espécies o pecado dos homens.

A primeira espécie provém de outra pessoa e é concedida de fora. É a justiça mediante a qual Cristo é justo e justifica pela fé, como diz 1 Coríntios 1.30. "...o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção". Ele próprio afirma, em João 11.25: "Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, não morrerá eternamente." E novamente, João 14,6: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" Esta justiça, portanto, é concedida aos homens no batismo, e, em toda época de verdadeira penitência, resulta que o ser humano pode gloriar se, com toda confiança, gloriar-se em Cristo e dizer.: É meu tudo o que e de Cristo: sua vitória seus feitos, o que disse e sofreu, sua morte - corno se eu próprio tivesse vencido, feito, dito, sofrido tais coisas e tivesse sido morto. Pertence ao noivo tudo o que a noiva possui, e à noiva pertence tudo o que o noivo possui (pois todas as coisas lhes são comuns visto serem em comum, uma vez que são uma só carne). Assim também Cristo e a igreja constituem um só espírito. Foi assim que o bendito Deus e Pai das misericórdias, conforme São Pedro nos concedeu coisas excelsas e preciosas em Cristo. Da mesma forma, na Segunda Epístola aos Coríntios: “Bendito seja o Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo pai das misericórdias e Deus de toda consolação” (1.3) “que tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”. (Efésios 1.3)

Esta bênção indizível foi prometida outrora a Abraão em Gênesis 12.3: "Na tua semente (isto é, em Cristo) serão abençoadas todas as tribos da terra." Em Isaías 9.6: "Um menino nos nasceu, um filho se nos deu." "A nós" diz ele, porque é a nós que pertence todo ele, com todos os seus bens, se nele cremos, como diz aos Romanos no capítulo 8.32: "Não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou; porventura, não nos dará com ele todas as coisas?" São nossas, portanto, todas as coisas que Cristo tem, concedidas que foram gratuitamente a nós homens indignos, por pura misericórdia, quando, na verdade, teríamos merecido ira e condenação, bem como o inferno, Por essa razão também o próprio Cristo, que afirmou ter vindo para cumprir essa vontade santíssima do Pai, tornou-se obediente a ele, e fez em nosso benefício e quis que fosse nosso tudo o que fez, pois declarava: “Eu estou no meio de vocês como alguém que serve” (Lucas 22.27), e novamente: “Este é meu corpo, que é dado por vós” (Lucas 22. 19); e Isaías diz no capítulo 43.24: “Fizeste-me servir em teus pecados, e me deste trabalho em tuas iniqüidades”.

Pela fé em Cristo, portanto, a justiça de Cristo se torna nossa justiça, e, com ela, é nosso tudo que é de Cristo, sim, ele próprio torna-se nosso, Por essa razão, o apóstolo a chama "justiça de Deus", na Epístola aos Romanos 1.17: "A justiça de Deus é revelada no evangelho, como está escrito: o justo vive da fé!" E mais: Refere-se à fé como sendo tal Justiça. Finalmente semelhante fé também é chamada de justiça de Deus, no capítulo terceiro da mesma carta: "Concluímos que o homem é justificado pela fé." (Romanos 3.28). Esta é a justiça infinita e que absorve todos os pecados num instante, pois é impossível que haja pecado em Cristo; antes, quem crê em Cristo, está apegado a ele, e é uma coisa só com Cristo, compartilhando com ele a mesma justiça. Por isso é impossível que nele continue havendo pecado. E essa justiça é a primeira, é o fundamento, causa, origem de toda justiça própria ou de conduta. Porque de fato a mesma é concedida em lugar da justiça original, perdida em Adão, e realiza aquilo, sim, muito mais do que aquela justiça original teria conseguido realizar.

Assim se compreende aquilo no Salmo 31.1: "Em ti, Senhor, me refugio; não seja eu jamais envergonhado: livra-me por tua justiça"; ele não diz “por minha”, mas “por tua”, isto é, pela justiça de Cristo, meu Deus, que foi feita nossa pela fé, pela graça, pela misericórdia de Deus. E isso é chamado, em muitos lugares no saltério, de obra do Senhor, confissão, força de Deus, misericórdia, verdade, justiça. Tudo isso são designações para a fé em Cristo, sim, para a justiça que está em Cristo. Por essa razão o apóstolo ousa dizer em Gálatas 2.20: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”, e em Efésios 3.17: “Que ele vos conceda que Cristo habite pela fé em vossos corações”.

Essa justiça alheia, portanto, infundida em nós sem atos nossos, somente pela graça, ou seja, quando o Pai nos leva interiormente a Cristo, essa justiça alheia é oposta ao pecado original, o qual, de forma semelhante, contraímos de fora por nascença e através de nossa concepção, sem atos nossos. E assim Cristo expulsa o velho Adão dia a dia, mais e mais, e nessa medida crescem aquela fé e conhecimento de Cristo; pois ela não é infundida toda de uma vez, mas começa e progride e é levada finalmente à perfeição com a morte.

A segunda justiça é nossa e própria; não porque nós a operamos sozinhos, mas porque cooperamos com aquela primeira e alheia. Esta é agora aquela boa vivência de boas obras: em primeiro lugar na mortificação da carne e na crucificação da concupiscência em si mesmo, conforme Gálatas 5.24: "Mas os que são de Cristo, crucificaram sua carne, com as paixões e concupiscências." Em segundo lugar também no amor ao próximo; em terceiro, também na humildade e no temor a Deus, do que está repleto o apóstolo e toda a Escritura. Mas ele resume tudo em Tito 2.12 dizendo: “Sobriamente” (isto é, em relação a si mesmo, pela crucificação da carne), “justamente” (ou seja, em relação ao próximo) “e piedosamente” (em relação a Deus) “vivamos neste século”.

Essa segunda justiça é obra da justiça anterior, fruto e conseqüência da mesma, conforme Gálatas 5.22: "Mas o fruto do Espírito (isto é, do homem espiritual, que ele se torna através da fé em Cristo) é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade", etc. Pois o homem espiritual é chamado de "espírito", nessa passagem, porque é evidente que aqueles frutos são obras dos homens. E João 3.6: "0 que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito." Essa justiça leva à perfeição a primeira, porque sempre atua no sentido de arruinar o velho Adão e destruir o corpo do pecado: por isso ela se odeia a si mesma e ama o próximo, não procura o que é seu, mas o que é do outro, e nisto consiste toda a sua atuação. Pois ao odiar a si mesma e não procurar o que é seu, ela efetua em si a crucificação da carne; porém, ao procurar o que é do outro, ela opera a caridade; e, assim, com ambas as coisas ela faz a vontade de Deus, vivendo "sobriamente" em relação a si mesma, "justamente" em relação ao próximo, e "piedosamente" em relação a Deus.

E nisso ela segue o exemplo de Cristo e se identifica com a sua imagem. Pois isto mesmo também Cristo exige: Assim como ele próprio tudo fez em nosso favor, não procurando o que é seu, mas apenas o que é nosso, também nisso obedientíssimo a Deus Pai, assim ele quer que também nós mostremos este exemplo frente aos nossos semelhantes.

Essa justiça é contraposta ao nosso próprio pecado real, conforme Romanos 6.19: "Assim como ofereceram seus membros para a escravidão da impureza, e da maldade para a maldade, assim ofereçam agora seus membros para servirem a justiça para a santificação." (Romanos 6.19). Portanto se levanta pela primeira justiça a voz do noivo que diz à alma: "Eu sou seu", e pela segunda, a voz da noiva, que diz: "Eu sou sua"; está feito então o matrimônio firme, perfeito e consumado, como consta no Cântico dos Cânticos: Meu amado é para mim, e eu para ele, o que quer dizer, "meu amado é meu, e eu sou dele". (Cantares 2.16). Então a alma não procura mais ser justa perante si mesma, mas tem como sua justiça a Cristo; daí ela procura apenas o bem dos outros. Por isso o senhor da sinagoga ameaça através do profeta tirar dela a voz da alegria, a voz do no noivo e a voz da esposa Jeremias 7.34).

Isto é o que diz o tema anteposto: “Tenham em vocês o mesmo sentimento etc” (Filipenses 2.5); isto é, que tenham a mesma atitude e sentimento um para com o outro como vêem que Cristo os teve em relação a vocês. Como isto? "Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, etc." A forma de Deus não é chamada aqui de essência de Deus, porque desta Cristo nunca se despojou; de igual modo também a "forma de servo" não pode ser chamada de essência humana; e sim, "forma de Deus" é sabedoria, poder, justiça, bondade, e ainda liberdade, assim como Cristo foi um homem livre, forte, sábio, sujeito a ninguém, nem ao vício nem ao pecado, como são todos os seres humanos (pois ele era superior naquelas formas que cabem principalmente a Deus). Mesmo assim ele não se ensoberbeceu desta qualidade, não agradou a si mesmo, tampouco se enfastiou com os outros nem desdenhou os que eram servos e estavam sujeitos a diversos males, como aquele fariseu que disse: "Graças te dou, que não sou como as outras pessoas" (Lucas 18.11), que se alegrava com o fato de os outros serem miseráveis, não querendo de forma alguma que eles fossem semelhantes a ele. Essa é a usurpação que a pessoa se arroga, sim, com a qual ela guarda o que tem e não o atribui exclusivamente a Deus (a quem pertencem esta coisas), nem serve aos outros com as mesmas, para fazer-se igual aos outros. Assim querem ser como Deus, suficientes em si mesmos, autocomplacentes, gloriando-se a si mesmos, sem dever nada a ninguém, etc. Cristo, porém, não teve esta atitude, não é assim que ele foi "sábio", e sim, aquela forma divina ele a atribuiu ao Pai, e se esvaziou a si mesmo, não querendo utilizar aqueles títulos frente a nós, não querendo ser diferente de nós; sim, antes ele se tornou para nós como um de nós e aceitou a forma de servo (isto é, sujeitou-se a todos os males). Mesmo sendo livre, como também diz o apóstolo (1 Coríntios 9.19), se fez servo de todos, não agindo de outra forma senão como se fossem seus todos esses males que eram nossos. Por isso ele tomou sobre si nossos pecados e castigos e agiu de forma tal que os vencesse como que para si mesmo, sendo que na realidade ele os venceu para nós. Com respeito a nós, ele poderia ser nosso Deus e Senhor. Ainda assim não o quis, mas preferiu tornar-se nosso servo, como diz Romanos 15.11,3: "Não devemos agradar a nós mesmos", pois também Cristo não se agradou a si mesmo. Mas, como está escrito, "as injúrias dos que te ultrajam caem sobre mim" (Salmo 69.9), que expressa o mesmo que a sentença acima.

Daí sucede que essa autoridade que muitos entendem como afirmação, deve ser compreendida de forma negativa, ou seja: Cristo não se julgou igual a Deus, isso é, não quis ser igual, como acontece com aqueles que o tomam para si, que dizem a Deus: "Se não deres (como diz Bernardo) a mim a tua glória, eu mesmo dela me apossarei" A frase "não julgou como usurpação o ser igual a Deus" não deve ser entendida como afirmativa no sentido de que ele não julgou ser igual a Deus; isto é: não teria julgado usurpação ser igual a Deus: porque esta sentença não faz sentido adequado, pois fala de Cristo como pessoa humana. O que o apóstolo quer é que cada cristão se torne servo do outro, a exemplo de Cristo. E se alguém possui alguma sabedoria ou justiça ou poder, através do que ele poderia superar os outros e gloriar-se como se fosse deiforme, esse não deve tomar isto como seu, mas atribuí-lo a Deus. De modo geral, deve despir-se dessas qualidades e comportar-se como um daqueles que não as têm, para que cada um, esquecido de si mesmo e despojado dos dons de Deus, aja com seu próximo como se fosse sua própria a fraqueza, o pecado e a ignorância do próximo; não se glorie, nem se ufane, nem desdenhe, nem triunfe contra aquele, como se fosse seu Deus e igual a Deus; uma vez que se deve deixar isso somente para Deus, semelhante soberba leva à "usurpação". Assim, portanto, é compreendida a "forma de servo" e se cumpre aquilo que o apóstolo escreve em Gálatas 5.13: "Sejam servos uns dos outros, pelo amor." E em Romanos 12.4s e 1 Coríntios 12.12ss ele ensina, pela semelhança dos membros do corpo, como os membros fortes, honestos e sãos não se ensoberbecem frente aos fracos, desonestos e doentes, como se dominassem e fossem seus deuses. Ao contrário, eles antes servem àqueles, esquecendo-se de sua honestidade, saúde e força. Pois nenhum membro do corpo se serve a si mesmo nem procura o que é seu, mas o que é do outro, e isso tanto mais, quanto mais fraco, doente e desonesto for aquele. E para falar com as suas palavras, são "solícitos os membros entre si, para que não haja divisão no corpo". Com isso se torna claro agora como se deve agir com o próximo em todas as coisas.

Porque, se não quisermos nos despir voluntariamente dessas "formas de Deus" e vestir as "formas de servo", seremos forçados e despidos contra a vontade. Quanto a isso observe em Lucas 7.36ss a história em que Simão, o leproso, assentado em "forma de Deus" e em justiça (própria,) julgava arrogantemente e olhava com desprezo para Maria Madalena, na qual ele via a "forma de servo". Mas veja: Cristo logo o despiu da forma da justiça e lhe pôs a forma do pecado, dizendo: "Você não me deu o beijo, não ungiu minha cabeça." Repare quão grande eram os pecados que ele não enxergava! Tampouco se julgava ele deformado por uma forma repugnante. Não há qualquer lembrança de boas obras suas. Cristo ignora a "forma de Deus" na qual aquele se agradava a si mesmo e se ensoberbecia, nada menciona de que tivesse sido por ele convidado, recebido à mesa ou honrado: Simão, o leproso, nada mais é do que um pecador, que tão justo se parecia a si mesmo. Tirou-se-lhe a glória da "forma de Deus", deixando-o envergonhado na forma de servo, querendo ou não. Em contraposição, a Maria ele honra com a "forma de Deus", sobrepõe-lhe a sua e a eleva acima de Simão, dizendo: Esta ungiu meus pés, beijou-os, regou-os com lágrimas e os enxugou com os cabelos. Veja quanto mérito, que nem ela mesma nem Simão enxergavam! Não há qualquer lembrança dos seus deméritos, Cristo ignora a "forma de servidão" nela, a qual ele engrandeceu com a forma de senhorio, e Maria nada menos é do que justa, exaltada na glória da forma de Deus, etc.

Assim ele fará com todos nós, sempre que nos inflarmos por causa da (nossa) justiça, sabedoria ou força, e nos irritarmos contra injustos, tolos e os mais fracos que nos: pois então (esta é a maior perversão) a justiça opera contra a justiça, a sabedoria contra a sabedoria, a força contra a força. Porque você é forte não para fazer os fracos ainda mais fracos, pela opressão, mas para que os torne fortes, exaltando e defendendo-os. E é sábio não para rir dos tolos e assim fazê-los ainda mais tolos, mas para aceitar, como quer que aconteça em relação a você mesmo, e para os ensinar. Assim você é justo, para que justifique e desculpe o injusto, não para condená-lo apenas, falar mal dele, julgar e castigá-lo. Pois este é o exemplo de Cristo para nós, conforme ele diz: “O Filho do homem não veio para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo através dele” (João 3.17); e novamente em Lucas 9.55ss: “Não sabem de que espírito são? O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”. Mas a natureza resiste violentamente, porque ela muito se deleita com a vingança e a glória de sua justiça e com a vergonha da injustiça do seu próximo. Por isso promove apenas sua própria causa e se alegra de estar ela melhor que a do próximo, acossando, porém, a causa do próximo e desejando que ela vá mal. Essa perversão é toda a injustiça, contrária ao amor que não procura o que é seu, mas o que é do outro. Portanto deve-se lamentar que a causa do próximo não esteja melhor que a própria, e desejar que ela vá melhor que a própria, sem que a alegria seja menor que sobre a própria causa: pois essa é a lei e os profetas.

Vocês dizem: “Acaso não é permitido castigar os maus? Não convém punir os pecados? Quem não tem a obrigação de defender a justiça? Pois isso seria dar oportunidade à transgressão”.

Respondo eu: “Aqui não se pode dar uma resposta simples: é preciso fazer uma distinção entre as pessoas: ou são homens públicos ou pessoas particulares”.


Aos homens públicos, isto é, os que estão a serviço de Deus ou ocupam posição de direção, não se referem essas coisas que foram ditas: pois a esses Cabe punir e julgar os maus ex officio e por necessidade, vingar e defender os oprimidos. Por que não são eles mesmos, mas quem o faz é Deus, cujos servos eles são nisto, como o apóstolo expõe largamente em Romanos 13.4, dizendo: "Não é sem motivo que (a autoridade) traz a espada", etc. Isto, entretanto, deve ser entendido com referência aos assuntos dos outros, e não dos próprios. Pois ninguém está encarregado por Deus por causa de si mesmo ou de seu próprio interesse, mas por causa dos outros. Se, porém, alguém tem uma causa própria, deve requerer outro representante de Deus que não ele mesmo; porque ele já não é mais juiz, mas litigante. Mas sobre esses fatos uns dizem uma coisa, outros outra; o assunto é amplo demais para ser discutido agora.

Pessoas privadas e em causa própria há três tipos: os primeiros são os que querem vingança e procuram julgamento junto aos representantes de Deus, e desses há agora um grande número. Isto o apóstolo o tolera, mas não aprova, conforme 1 Coríntios 6.12: "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém;" sim, ele até diz ali mesmo: "Em princípio já é uma falha entre vocês o fato de terem demandas," (1 Coríntios 6.7). Mas ainda assim, por causa do mal maior, é tolerado este mal menor, para que não se vinguem a si mesmos e um não use da violência contra o outro, retribuindo o mal com o mal ou reclamando seus bens. Contudo esses não entrarão no reino dos céus, a não ser que mudem para melhor e deixem do que é permitido para seguir o que convém. Porque precisa ser extinta essa atitude de procurar a vantagem própria.

Os outros são aqueles que não procuram vingança, os que estão dispostos inclusive (segundo o evangelho) a dar ao que lhes tira o manto, também a túnica, sem resistir a maldade alguma. Estes são filhos de Deus, irmãos de Cristo, herdeiros dos bens futuros. Por isso eles são chamados nas Escrituras de órfãos, pupilos, viúvas e pobres, de quem Deus quer ser chamado de Pai e Juiz (Salmo 68.5); porque não se vingam a si mesmos. Sim, se os regentes querem vingar em seu favor, eles ou não o desejam e procuram, ou apenas o permitem; ou, se forem de grande perfeição, o proíbem e impedem, dispostos antes a perder também outras coisas por causa disso.

Se você disser: "Esses são pouquíssimos, e quem pode ficar neste mundo, agindo assim?", respondo: Não é nenhuma novidade hoje que poucos são salvos, e que é estreita a porta que leva para a vida, e que poucos a encontram. E se ninguém o fizer, como ficará a Escritura que declara serem os pobres, órfãos e pupilos e povo de Cristo? Por isso esses se afligem mais do pecado dos que os ofendem do que por causa do próprio dano e ofensa. E preferem agir de modo a chamar aqueles de volta do pecado a vingar as injúrias. Por essa razão despem-se das formas de sua justiça e vestem as formas daqueles, orando pelos que os perseguem, falando bem dos que falam mal, fazendo o bem aos que lhes fazem injustiça, estando prontos a sofrer e satisfazer os castigos em favor dos seus próprios inimigos, (Mateus 5.44) para que sejam salvos. Esse é o evangelho e exemplo de Cristo.

Os terceiros são aqueles que, na atitude, são corno os segundos, já mencionados, mas no efeito são diferentes, São os que não reclamam de volta o que é seu nem desejam punição por procurarem o que é seu; eles, isto sim, através dessa punição e restituição do que é seu procuram a melhora daquele que roubou ou ofendeu e que, segundo vêem, não pode ser consertado sem punição. Esses são chamados de zelosos e recebem louvor nas Escrituras. Mas isso não deve tentar senão quem é perfeito e muitíssimo exercitado no segundo grau já falado, para que ele não tome a fúria por zelo e não venha a ser convencido de que aquilo que ele crê fazer por amor à justiça, ele o tenha feito antes por indignação e impaciência. Porque a ira muito se assemelha ao zelo, e a impaciência ao amor da justiça, de sorte que não podem ser satisfatoriamente distinguidos, senão por pessoas muitíssimo espirituais. Ato desta espécie fez Cristo (conforme está dito em Jo 2.14ss), quando, tendo feito açoites, expulsou vendedores e compradores do templo, bem como Paulo, quando disse: "Com a vara irei até vocês", etc. (1 Coríntios 4.21).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Passo-a-passo na montagem de um sermão

Help! Preciso de um sermão!

Por Marcelo Lemos

Ainda me lembro da primeira vez que tive a responsabilidade de pregar um sermão. Eu era bem jovem naquele tempo, não tendo mais que 17 anos... Foi um sufoco danado! Fiquei tão“despesperado” por encontrar um bom tema, que comprei um certo livro com mais de mil esboços bíblicos – só para descobrir que a maioria deles não parecia fazer muito sentido. Até hoje não consegui dar um fim muito proveitoso a tal livro; apesar de reconhecer alguns méritos do mesmo.

Lamento que naquela época eu não tenha tido acesso a orientações práticas sobre o assunto, mas sei que em todas as coisas Deus tem os seus propósitos para nós. Sem muito preparo, subi ao pulpito com um texto, um tema, e algumas divisões principais. Não foi uma experiencia ruim, mas também não posso dizer que o resultado foi lá dos melhores.

Talvez você esteja passando por um desafio semelhante, e eu gostaria de compartilhar com você alguns passos básicos para a formulação de uma mensagem bíblica, que poderá ser utilizada no pulpito, ou numa sala dominical. Não entraremos em detalhes e pormenores, todavia, pretendemos lhe passar uma visão geral, e prática, sobre o assunto.

Antes de tudo, creio que você já estará plenamente convencido de que uma vida espiritual saudável é extremante importante para aquele que se dedica a pregação do Evangelho. Spurgeon, o maior dos pregadores, declarou:

Caso alguém me pergunte: como posso escolher [para o sermão] o texto mais apropriado? Eu lhe responderia: Pedindo a Deus!


Harrington Evans, um grande mestre na matéria, também fazia questão de colocar como a primeira regra da homilética, aquela que diz: “Peça a Deus em oração!”.

Vida espiritual. Se você realmente deseja ser um servo bom e fiel, não se esqueça jamais deste requisito indispensável.

Agora que já comentamos sobre este ponto fundamental, e obvio, passaremos a listar alguns passos importantes na hora de preparar o seu sermão; ainda que ele seja o seu primeiro sermão.
I
ESCOLHA UM TEXTO

Para pregar você precisa de um texto. Isto é verdade para aqueles que desejam pregar a Bíblia. Recentemente vi um pregador falar quase uma hora sobre [supostamente] o tema “Missões”, sem que ele lesse qualquer versículo bíblico. Não estranhei o fato de ele falar tanto sobre vitória, ser “grande na terra dos viventes”, e “amarrar o inimigo”. Falou, falou, falou... pregar que é bom... nada! Não entre por este caminho!

Escolha um texto bíblico. Qual? Impossível dar uma receita sobre este ponto. Mas, no meu caso, procuro sempre manter um cronograma de estudos bíblicos pessoais; de modo que nunca preciso “escolher” um texto aleatoriamente, já que estou sempre com algum no coração. Penso que é uma boa política, e aconselho que você procure sempre fazer algo semelhante.
Existem alguns casos nos quais o texto é automático. Por exemplo, num congresso onde há um tema baseado em um versículo. 

Outro exemplo, num culto de Ceia, é normal que escolhamos textos que falem da expiação, da eleição, da redenção, da Paixão do Senhor, enfim. Em casos assim, inovar é algo arriscado, principalmente para o iniciante. Fique sempre com o mais simples. Pregadores extravagantes é o que não falta.

O importante aqui é: tenha em mãos um texto! Não se atreva, jamais!, a subir ao altar sem que tenhas no coração uma mensagem vinda de Deus, por meio das Escrituras. O pregador sempre deverá poder dizer: “Assim diz o Senhor!”. Se você tem menos que isso, não pregue!
A título de ilustração, vamos escolher I Timóteo 1.15;

Está é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.
II
COMPREENDA O TEXTO

O que este texto está dizendo? Qual o significado? Deveria ser evidente que para se poder pregar um texto bíblico, o pregador precisa compreender o que o autor inspirado estava dizendo. Infelizmente, nem sempre acontece assim. Há pregadores que simplesmente mutilam completamente o que o texto diz, criando uma teoria completamente alheia as Escrituras.
Sobre este perigo, leia o artigo “Eisegeses Famosas”, que publicamos recentemente aqui no Olhar Reformado.

O texto que escolhemos é de fácil compreensão. Poderiamos resumir o seu significado da seguinte forma: há uma boa noticia, que é verdadeira, e que deve ser aceita pelo pecador. E está notícia, boa e verdadeira, é que Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, mesmo o pior deles!
III
ELABORE UM TEMA, COM BASE NO TEXTO

Uma vez que compreendemos o significado do texto, podemos conseguir elaborar vários temas a partir dele. No caso de I Timóteo 1.15, poderiamos abordar um tema mais “devocional”, e apropriado para um culto de Santa Ceia, por exemplo. Como também podemos mudar um pouco o foco, e elaborarmos um tema mais voltado para o evangelismo. Note, por gentileza, que não se trata de mudar o significado do texto (só existe um!), mas sim, focalizar o significado de acordo com o alvo que temos em mente.

Ficaremos com a segunda opção: evangelismo.

IV
ELABORE UMA TESE

“Tese” é o que tomaremos a liberdade de definir como “uma verdade a ser provada com as escrituras”. Em outras palavras, você compreendeu o assunto abordado no texto, e escolheu um tema que está ligado ao assunto do texto. Certamente você terá, então, encontrado uma, ou mais verdades que podem ser aprendidas a partir do texto que é alvo de seus estudos.

No caso do nosso texto, escolhemos defender a tese de que: “O evangelho é a melhor notícia que o pecador pode receber!”. Veja que aqui temos duas ligações: a primeira, com o assunto do texto em análise: como vimos, ele fala do valor da mensagem do Evangelho. A segunda, tem haver com o tema que escolhemos: evangelismo. Assim, dentro do assunto, resolvemos abordar uma questão voltada para o Evangelismo.

Poderiamos ter escolhido uma outra tese, mais devocional, como: “O Evangelho é a única razão de estarmos aqui!”. Uma tese assim, seria mais apropriada para um Culto de Santa Ceia, por exemplo. Neste caso, porém, nosso alvo-tema já não seria o evangelismo, mais a edificação espiritual da Igreja.

Perceba, portanto, como estes passos homiléticos tão simples, podem ser de grande ajuda para o pregador!

V
ELABORE UMA FRASE DE TRANSIÇÃO COM “PALAVRA-CHAVE”

Aqui temos uma dica muito interessante, e útil também. Quando você anunciar a sua tese perante a Congregação, na mente dos seus ouvintes haverá automaticamente uma pergunta, ainda que não seja conscientemente formulada: “porque?”, “como?”, “onde?”, e assim por diante.

Se você diz: “O Evangelho é a melhor notícia que o pecador pode receber!”; você também deverá apresentar as razões que provam que sua afirmação é biblicamente verdadeira. Não basta apenas afirmar algo, é preciso provar tal coisa, a luz da Palavra de Cristo.
Continuando com nosso exemplo, você dirá: “O Evangelho é melhor notícia que o pecador pode receber”. E, em seguida, devidamente preparado, acrescentará algo como;

Quero, com a Graça de Deus, lhes apresentar as razões pelas quais não existe, para o pecador, melhor notícia que o Evangelho. A primeira razão que desejo compartilhar com vocês, é que...


Por qual razão chamaos esta frase de “frase de transição”? O motivo é muito simples: ela liga a introdução do sermão, e a apresentação do tema-tese, ao restante do discurso. O pregador introduz o tema, e com esta frase prepara a Igreja para seguir o seu raciocinio, e chegar a mesma conclusão que ele chegou ao estudar o assunto. Por isso, denominamos a mesma de “frase de transição”.

Além disso, há um outro detalhe que devemos compreender: a frase de transição deve contar com uma “palavra-chave”. No exemplo acima, a nossa palavra-chave é “razões”. Entender isso é muito importante. Quando o pregador diz que vai falar sobre as “razoes” que provam a veracidade de sua tese, ele não poderá falar sobre causas, consequencias, efeitos, motivações, alegrias, erros, enfim. Toda a sua mensagem deverá girar em torno das “razões” que provam que sua tese está biblicamente correta. Isso dará UNIDADE ao discurso do pregador.

Outra vantagem importante do uso de palavras-chave, é o fato de que este recurso possibilita uma grande variação no pulpito. Por exemplo, observe o tema a seguir.

“Nada é impossível para o Deus que nós servimos!”


Imagine que alguém te desafie a pregar três mensagens, semana após semana, sem sair deste tema; porém, com o dever de não repetir a mesma pregação! Seria tal coisa possível? Provavelmente, a resposta é “sim” – desde que você compreenda, e faça uso correto das palavras-chave.

Vamos tentar ilustrar isso;
  • Primeiro Domingo
Tese: “Nada é impossível para o Deus que nós servimos!”
Frase de transição: “Hoje, quero mostrar as razões que nos levam a confiar plenamente no poder de Deus. Você pode acreditar no poder de Deus? Você pode acreditar que nada é impossível para o nosso Deus? Hoje, veremos que temos muitas razões para crermos exatamente assim!”.
  • Segundo Domingo
Tese: “Nada é impossível para o Deus que nós servimos!”
Frase de transição: “Na mensagem de hoje, quero te convidar a conhecer alguns exemplos bíblicos que comprovam a nossa tese. Alguns provavelmente estão sendo assolados por dúvidas. Hoje, te convido a fazer uma viagem pelas páginas das Escrituras, atráves de milagres e incriveis desafios de fé; exemplos bíblicosque comprovaram que para o Deus que nós servimos, não existe nada impossível!”
  • Terceiro Domingo
Tese: “Nada é impossível para o Deus que nós servimos!”
Frase de transição: “Na primeira mensagem conhecemos as razões que nos permitem crer no poder de Deus. Depois, no domingo passado, conhecemos diversos exemplos bíblicos que edificaram a nossa fé no poder de Deus. No sermão desta noite, quero convidar você a descobrir os efeitos práticos que nossa fé no poder de Deus trarão para o nosso viver!”

Repare que apesar do tema ser exatamente igual nos três exemplos, cada pregação é única, pois aborda um sub tema de cada vez. No primeiro sermão, você pregou sobre as razões que levam os cristãos a confiarem no poder de Deus; no segundo, você pregou citando exemplos bíblicos que comprovam o poder de Deus; na terceira mensagem, fechando a série, você apresenta efeitos práticos de tal confiança no poder de Deus para a vida de seus ouvintes.

Observe também que nos exemplos acima, a palavra-chave nem sempre é solitária, antes, é perfeitamente possível, e algumas vezes aconselhavel, que esteja acompanhada de outra – “efeitos práticos” é um bom exemplo. O mais importante é perceber como ela proporciona UNIDADE e também VARIEDADE para o ministério do pregador bíblico.

VI
ELABORE OS ARGUMENTOS PRINCIPAIS

Voltemos ao nosso exemplo principal;

Tese: “O Evangelho é melhor notícia que o pecador pode receber”.
Frase de transição: “Quero, com a Graça de Deus, lhes apresentar as razões pelas quais não existe, para o pecador, melhor notícia que o Evangelho. A primeira razão que desejo compartilhar com vocês, é que...”.

É natural que tão logo você declare que apresentará “algumas razões”, os seus ouvintes automaticamente fiquem a espera de tais razões! Você aguçou a curiosidade deles, portanto, é bom que tenha, realmente, algumas razões para lhes apresentar, não é mesmo? He, he, he...

É aqui que entra aquilo que chamamos de Divisões Principais do sermão; que no exemplo acima, nada mais são que as tais ‘razões’, que provam a veracidade de sua tese. Observe como eu construiria o esboço pretendido;

Tese: “O Evangelho é melhor notícia que o pecador pode receber”.
Frase de transição: “Quero, com a Graça de Deus, lhes apresentar as razões pelas quais não existe, para o pecador, melhor notícia que o Evangelho".

I – A primeira razão, é que o Evangelho é uma “palavra fiel”, conforme diz Paulo no nosso versículo. A partir daqui, temos a primeira divisão principal do sermão. Nela, o pregador poderá, por exemplo, demonstar os motivos pelos quais a Palavra de Deus é “fiel”. Como? Por meio de ilustrações, exegese, exemplificações, enfim!

II – A segunda razão, é que o Evangelho é uma mensagem sobre “Graça”. Paulo diz que “Jesus veio ao mundo para salvar”. A partir daqui, temos a segunda divisão principal do sermão. Nela, o pregador, poderá, por exemplo, demonstrar que a religião cristão é diferente de qualquer outra: ela fala de Deus um Deus que salva o pecador, livre e soberanamente.

III – A terceira razão é que o Evangelho é uma mensagem sobre “Graça Infinita”. Paulo diz: “Veio ao mundo salvar pecadores, dos quais, sou o principal”. A partir daqui, temos a terceira divisão principal do sermão. Nela, o pregador, poderá usar o próximo exemplod a vida pregressa de Paulo, para demonstrar que Deus salva até mesmo aquele que se considera o pior dos pecadores. Não há limites que impeçam Deus de alcançar eficazmente qualquer de seus eleitos – nem mesmo o mais terrivel pecado!

Se você precisa de um sermão, por mais inesperiente que seja no pulpito, estamos convencidos de que conheçendo tais noções sobre a arte da homilética, você, com a Graça de Deus, poderá apresentar-se perante Deus, e Sua Igreja, com uma mensagem bíblica, simples, clara e eficiente.

Minha oração é que estes apontamentos possam ser de utilidade para você, querido companheiro de Seara!

Caso deseje, utilize este espaço para tirar suas dúvidas, compartilhar conhecimentos, fazer sugestões, ou apenas para fazer um bloguei feliz com o seu carinhoso, e sempre bem-vindo, "olá"!

Paz e bem!

Fonte: [Olhar Reformado]