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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Santidade como o Redirecionamento do Desejo – J. I. Packer


Desejo é o estado do "eu quero" da consciência. Nesta linha de ensino(que nos remonta, pelo menos, aos dias de Origenes, no século 3o, Agostinho, no 5o, e Gregório, o Grande, no 6o), a santidade é vista em primeiro lugar como o afastamento do desejo das coisas criadas para voltar-se ao Criador, por intermédio de Cristo, para expressão e satisfação na - e por meio da - oração centrada em Deus. Mesmo entendendo a importância da vida exterior de justiça, integridade e amor ao próximo, a vida interior de oração, de um coração puro, é considerada (o que, sem dúvida, é certo) algo muito mais importante. Deus chama seus filhos para que lhe entreguem o coração. Descobrir sua plenitude de vida, aqui e agora, no relacionamento de amor, conhecimento e regozijo com Deus será uma antecipação de sua vida no céu. A oração é, assim, o primeiro item na vida de santidade. Na realidade, apenas à medida que a oração for a respiração, a batida do coração e a fonte de energia no íntimo de uma pessoa é que se pode dizer que ela está vivendo uma vida de santidade.

Alcançar e manter uma vida constante de oração e centrada em Deus é uma luta. Os cristãos se encontram em um conflito constante com o Diabo e suas hostes, que, por permissão de Deus, tentam fazer com que pequemos e nos desviemos da obediência com o intuito de obstruir e destruir a santidade em nossa vida interior. A oração sincera brota apenas de um coração sincero, que luta contra o pecado e se examina regularmente para não se enganar. Assim, a essência da estratégia de Satanás é impedir-nos de ter um coração sincero. (Ele não está preocupado com o fato de o nosso comportamento ser irrepreensível aos olhos dos homens contanto que o nosso coração não seja sincero diante de Deus; a absorção e o comodismo do orgulho de nossas fantasias e motivações é tudo que ele precisa para alcançar os seus objetivos.) Deus permite que sejamos, portanto, infiltrados e parcialmente assaltados, para que, pelo menos, possamos estar fortalecidos, aperfeiçoados e ancorados nele de maneira mais profunda, pela experiência de lutar na sua força. Este é o verdadeiro significado do conceito de batalha espiritual (Ef 6.10-20).

Desejar a Deus

O ensino em análise afirma que desejar e contemplar o nosso Salvador e Deus na reciprocidade do amor é a atividade mais importante e nobre da vida. No desenvolvimento desse pensamento, são feitas duas afirmações: primeira, os cristãos freqüentemente perdem a alegria deste relacionamento por sua própria negligência e preocupação com outras coisas; segunda, Deus às vezes não nos deixa sentir a sua presença e amor, que nos concede em outras ocasiões, para nos ensinar lições sobre paciência e pureza de coração que, do contrário, não aprenderíamos. Uma diversidade de abordagens foram desenvolvidas com o objetivo de articular estas verdades. Vamos observar rapidamente algumas delas.

A importância de se distanciar do que deseja o coração tem sido freqüentemente expressada em termos de retirar-se para o"deserto" de solidão, onde os desejos são purificados. O mesmo ponto foi observado no Ocidente por meio do direcionamento dos cristãos à renúncia de todas as distrações que se sobrepõem ao "cone" ou "ápice" de sua alma, e, no Oriente, mediante a exigência da "apatheia" (que não significa impassibilidade interior, mas o domínio próprio que redireciona a paixão para a busca de Deus). Agostinho, Bernardo e Thomas à Kempis, Inácio de Loyola e Francisco de Sales; e puritanos, como Richard Sibbes, Richard Baxter, Thomas Goodwin e John Owen, com muitos outros antes e depois deles, mapearam os caminhos do pensamento e da oração que separam o desejo do apelo magnético deste mundo para atrelá-lo mais firmemente a Deus, em Cristo.

Por um lado, o relacionamento entre a meditação verbal e a petição, e, por outro, a contemplação e o entregar-se pós - e não - verbal ao Senhor, a quem se conhece, confia e ama, foi explorado por mestres do "casamento espiritual", que desenvolveram a analogia da linguagem e comunhão do amor entre os sexos e a aplicaram ao relacionamento de uma pessoa com Deus. Na mesma relação, os cistercienses, franciscanos e outros enfatizaram as ligações entre a contemplação amorosa de Deus e a ação compassiva entre homens e mulheres, enquantoJonathan Edwards, em seu livro Tratado sobre Afeição Religiosa, estabelece testes que mostram se sentimentos fortes em um contexto de devoção são ou não autenticamente espirituais (resultantes da obra do Espírito Santo no coração).Toda esta instrução procura, de qualquer forma, indicar o caminho que conduz àquela satisfação em Deus, que é o supremo valor e glória da vida.

Desejos Frustrados

Outras apresentações clássicas foram feitas sobre o uso de Deus da disciplina de indiferença e do desejo temporariamente frustrado como uma maneira de fortalecer a vida interior de seus servos. Teresa de Ávila e João da Cruz descreveram etapas ou fases diferentes na vida de oração, incluindo as "trevas da alma"que podem preceder a alegria da união observada com Deus. O ensino dos puritanos sobre o "abandono espiritual" foi substancialmente o mesmo que o apresentado pelos dois místicos espanhóis que acabamos de citar.

Deus traz a indiferença, com uma conseqüente inquietação do coração, para induzir a um novo aprofundamento em humildade, uma esperançosa abertura para si, que ele coroa com uma reafirmação que libera e anima o seu amor - que vai além de qualquer coisa que já se sentiu. Como a humilhação e a dor de Cristo na cruz precederam sua exaltação para o gozo de seu trono, assim, repetidamente, experiências humilhantes de impotência e frustração precedem a renovação interior, com uma sensação de triunfo e glória, no coração do cristão. Em conseqüência, o nosso Pai Celestial, com uma sabedoria adaptada a cada temperamento, circunstância e necessidade do cristão, chama e traz seus filhos para mais perto de si. Pense nas palavras de Paulo e do salmista sobre este tema:

Mas o que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhe¬cimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para conseguir Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer... (Fp 3.7-10)

Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre. (SI 73.25,26)

Estas declarações são transcrições clássicas de um coração genuinamente santo. O redirecionamento do desejo, de modo que ele se concentre na comunhão com o Pai e o Filho, e o fortalecimento desse desejo assim redirecionado, é a verdadeira essência da santidade. Todas as formas maduras de santidade cristã, ensinadas no decorrer dos séculos, iniciaram-se aqui, vendo isto como o verdadeiro fundamento de todas as coisas na vida cristã e insistindo que o único povo verdadeiramente santo é aquele que tem paixão por Deus. Nós, hoje, temos de começar aqui também.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Santidade - Objetivo todo-abrangente na vida de John Owen




O que gostaria de fazer agora é tentar me aproximar do cerne daquilo que fez este homem notável e daquilo que o fez grande. Acredito que o Senhor quer que sejamos inspirados por este homem de uma profunda forma pessoal e espiritual. Parece que esta é a forma que ele tocou tanto as pessoas – como J.I. Packer e Sinclair Ferguson.

Acredito que as palavras dele que nos trazem mais próximos do coração e do objetivo de sua vida são encontradas no prefácio do pequeno livro A Mortificação do Pecado nos Crentes, que foi baseado nos sermões pregados aos estudantes e à comunidade acadêmica em Oxford: Espero que eu possa possuir em sinceridade que o meu desejo de coração para com Deus, e o principal desígnio de minha vida.... é, que a mortificação e a santidade universal possam ser promovidas no meu e nos corações e caminhos dos outros, para a glória de Deus, a fim de que o Evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo possa ser adornado em todas as coisas.

Isto foi em 1656. Owen tinha 40 anos de idade. Vinte e cinco anos depois ele ainda estava tocando a mesma nota em suas pregações e escritos. Em 1681, ele publicou The Grace and Duty of Being Spiritually Minded [A Graça e o Dever de Ser Espiritualmente Orientado].Sinclair Ferguson está provavelmente correto quando diz “Tudo que ele escreveu a seus contemporâneos têm um objetivo prático e pastoral em vista – a promoção da verdadeira vida cristã”– em outras palavras, a mortificação do pecado e o avanço da santidade.

Este foi seu encargo não somente para as igrejas, mas também para a Universidade, quando estava lá. Peter Toon diz: “A ênfase especial de Owen era insistir que o inteiro currículo acadêmico deveria ser imerso em pregação, catecismo e oração. Ele queria que os graduados de Oxford não somente fossem proficientes em Artes e Ciências, mas que também aspirassem à piedade”.

Mesmo em suas mensagens políticas – os sermões ao Parlamento – o tema era repetidamente santidade. Ele baseou isto na linha de pensamento do Antigo Testamento – que “o povo de Israel estava nas melhores condições quando seus líderes eram piedosos”.

Portanto, o ponto principal dele era que o legislativo deveria ser composto por pessoas santas. Sua preocupação de que o Evangelho se espalhasse e fosse adornado com santidade não era apenas um encargo para sua terra natal, a Inglaterra. Quando ele voltou para a Irlanda em 1650, onde viu as forças inglesas, sob as ordens de Cromwell, dizimar a Irlanda, ele pregou no Parlamento e clamou por outro tipo de guerra:

“Como Jesus Cristo pode estar na Irlanda apenas como um leão que mancha suas vestes com o sangue dos seus inimigos; e ninguém o sustenta como um Cordeiro que derramou Seu próprio sangue por seus amigos?... Isto é lidar corretamente com o Senhor Jesus? – chamá-lo para a batalha e tirar-lhe a coroa? Deus foi fiel convosco ao fazer grandes coisas por vocês; sejam fiéis nisto – dêem o seu máximo pela pregação do Evangelho na Irlanda”.

De seus próprios escritos, e do testemunho de outros, parece justo dizer que o objetivo da santidade pessoal em toda a vida, e a mortificação de todo pecado conhecido, foi o trabalho não somente de seus ensinamentos, mas de sua própria vida pessoal também. David Clarkson, seu associado pastoral nos anos finais do ministério de Owen, dirigiu o seu funeral. Nele, ele disse: Uma grande luz se apagou; uma de eminência pela santidade, conhecimento, qualidades e habilidades; um pastor, um erudito, um santo de primeira magnitude; a santidade deu um resplender divino às suas outras realizações, ela brilhou em todo o seu curso, e foi difundida através de toda a sua conversação.

John Stoughton disse que “Sua piedade igualou-se a sua erudição” Thomans Chalmers da Escócia comenta em On Nature, Power, Deceit, and Prevalence of Indwelling Sin in Believers [Sobre a Natureza, Poder, Engano e Prevalência do Pecado Interior nos Crentes]: 

“É mais importante ser instruído neste assunto por alguém que alcançou tais patamares em santidade, e cujo conhecimento profundo e experimental da vida espiritual o capacitou tão bem a detalhar sua natureza e operações.”
  
Por que devemos ouvir John Owen A razão pela qual esta questão é tão urgente para nós hoje, não é somente que há uma santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (Hebreus 12.14), mas que parece existir uma falta de líderes políticos e eclesiásticos hoje que façam da busca pela santidade algo tão central como a busca pelo crescimento da igreja ou pelo sucesso político. O Presidente dos Estados Unidos comunicou mui claramente que não acredita que sua santidade pessoal seja um fator significante em sua liderança desta nação3. A maneira desdenhosa com que muitas igrejas tratam um comportamento sexual decente é um eco da mesma doença. John Owen deveria ser aplicado tanto no cenário nacional quanto no eclesiástico.

John Owen é um bom conselheiro e modelo para nós neste assunto de santidade porque ele não era um eremita. Freqüentemente pensamos que algumas pessoas têm o prazer monástico de simplesmente saírem da confusão da vida pública e tornarem-se pessoas santos. Não eram assim que os Puritanos da época de Owen agiam. J.I. Packer diz que o Puritanismo foi “um monasticismo reformado, fora do claustro e longe dos votos monásticos”. Isto é especialmente verdadeiro de Owen.

Seu contemporâneo, Richard Baxter, chamou Owen de “o grande obreiro.” Ele vivia exposto ao público. Ele estava envolvido na administração acadêmica; tinha a política sempre aos seus ouvidos; se envolveu com os oficiais da liderança militar do país; estava envolvido em controvérsias sobre todos os tipos de assuntos, desde a autenticidade dos sinais vocálicos do hebraico e a Epístola de Inácio às leis nacionais de tolerância e a natureza da justificação; participou de centenas de ministérios congregacionais independentes, como seu porta-voz à nível nacional; ele fez tudo isto enquanto pastoreava as pessoas – e não se esqueça, perdendo um filho a cada três anos.

E todos nós sabemos que uma vida como esta é uma luta contra o criticismo, que pode quebrar o próprio espírito e fazer a busca pela santidade pessoal duplamente difícil. Quando seus adversários não podiam superá-lo em argumentação, eles apelavam para o assassinato do caráter. Ele foi chamado de “o grande líder da perturbação e sedição...uma pessoa que competia com Maomé, por sua agressividade e impostura... uma víbora, tão cheia de peçonha que deve logo morder ou derramar seu veneno.” E ainda mais doloroso e desanimador é o criticismo de amigos.

Certa vez, ele recebeu uma carta de John Eliot, o missionário aos índios na América, que o machucou, ele disse, mais que qualquer um de seus adversários: O que recebi de você... me marcou profundamente e deixou uma impressão bem maior em minha mente, mais do que todas as calúnias virulentas e falsas acusações que já recebi de meus adversários professos...Que eu deveria agora ser acusado para causar uma ferida para santidade nas igrejas, é um dos mais tristes franzimentos na fronte turva da Providência Divina.

Adicione a isto às dificuldades diárias de viver em um mundo pré-tecnológico, sem qualquer conveniência moderna, atravessando duas grandes pragas, uma das quais matou 70.000 do meio milhão de habitantes de Londres em 1665, mais os 20 anos vivendo fora da proteção da lei – assim, sabemos que a santidade de John Owen não funcionou apenas em momentos de conforto, prazer e segurança. Quando um homem como este, dadas estas circunstâncias, é lembrado e exaltado por séculos devido à sua santidade pessoal, deveríamos escutá-lo.  

John Piper