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terça-feira, 18 de maio de 2010

Santidade - Objetivo todo-abrangente na vida de John Owen




O que gostaria de fazer agora é tentar me aproximar do cerne daquilo que fez este homem notável e daquilo que o fez grande. Acredito que o Senhor quer que sejamos inspirados por este homem de uma profunda forma pessoal e espiritual. Parece que esta é a forma que ele tocou tanto as pessoas – como J.I. Packer e Sinclair Ferguson.

Acredito que as palavras dele que nos trazem mais próximos do coração e do objetivo de sua vida são encontradas no prefácio do pequeno livro A Mortificação do Pecado nos Crentes, que foi baseado nos sermões pregados aos estudantes e à comunidade acadêmica em Oxford: Espero que eu possa possuir em sinceridade que o meu desejo de coração para com Deus, e o principal desígnio de minha vida.... é, que a mortificação e a santidade universal possam ser promovidas no meu e nos corações e caminhos dos outros, para a glória de Deus, a fim de que o Evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo possa ser adornado em todas as coisas.

Isto foi em 1656. Owen tinha 40 anos de idade. Vinte e cinco anos depois ele ainda estava tocando a mesma nota em suas pregações e escritos. Em 1681, ele publicou The Grace and Duty of Being Spiritually Minded [A Graça e o Dever de Ser Espiritualmente Orientado].Sinclair Ferguson está provavelmente correto quando diz “Tudo que ele escreveu a seus contemporâneos têm um objetivo prático e pastoral em vista – a promoção da verdadeira vida cristã”– em outras palavras, a mortificação do pecado e o avanço da santidade.

Este foi seu encargo não somente para as igrejas, mas também para a Universidade, quando estava lá. Peter Toon diz: “A ênfase especial de Owen era insistir que o inteiro currículo acadêmico deveria ser imerso em pregação, catecismo e oração. Ele queria que os graduados de Oxford não somente fossem proficientes em Artes e Ciências, mas que também aspirassem à piedade”.

Mesmo em suas mensagens políticas – os sermões ao Parlamento – o tema era repetidamente santidade. Ele baseou isto na linha de pensamento do Antigo Testamento – que “o povo de Israel estava nas melhores condições quando seus líderes eram piedosos”.

Portanto, o ponto principal dele era que o legislativo deveria ser composto por pessoas santas. Sua preocupação de que o Evangelho se espalhasse e fosse adornado com santidade não era apenas um encargo para sua terra natal, a Inglaterra. Quando ele voltou para a Irlanda em 1650, onde viu as forças inglesas, sob as ordens de Cromwell, dizimar a Irlanda, ele pregou no Parlamento e clamou por outro tipo de guerra:

“Como Jesus Cristo pode estar na Irlanda apenas como um leão que mancha suas vestes com o sangue dos seus inimigos; e ninguém o sustenta como um Cordeiro que derramou Seu próprio sangue por seus amigos?... Isto é lidar corretamente com o Senhor Jesus? – chamá-lo para a batalha e tirar-lhe a coroa? Deus foi fiel convosco ao fazer grandes coisas por vocês; sejam fiéis nisto – dêem o seu máximo pela pregação do Evangelho na Irlanda”.

De seus próprios escritos, e do testemunho de outros, parece justo dizer que o objetivo da santidade pessoal em toda a vida, e a mortificação de todo pecado conhecido, foi o trabalho não somente de seus ensinamentos, mas de sua própria vida pessoal também. David Clarkson, seu associado pastoral nos anos finais do ministério de Owen, dirigiu o seu funeral. Nele, ele disse: Uma grande luz se apagou; uma de eminência pela santidade, conhecimento, qualidades e habilidades; um pastor, um erudito, um santo de primeira magnitude; a santidade deu um resplender divino às suas outras realizações, ela brilhou em todo o seu curso, e foi difundida através de toda a sua conversação.

John Stoughton disse que “Sua piedade igualou-se a sua erudição” Thomans Chalmers da Escócia comenta em On Nature, Power, Deceit, and Prevalence of Indwelling Sin in Believers [Sobre a Natureza, Poder, Engano e Prevalência do Pecado Interior nos Crentes]: 

“É mais importante ser instruído neste assunto por alguém que alcançou tais patamares em santidade, e cujo conhecimento profundo e experimental da vida espiritual o capacitou tão bem a detalhar sua natureza e operações.”
  
Por que devemos ouvir John Owen A razão pela qual esta questão é tão urgente para nós hoje, não é somente que há uma santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (Hebreus 12.14), mas que parece existir uma falta de líderes políticos e eclesiásticos hoje que façam da busca pela santidade algo tão central como a busca pelo crescimento da igreja ou pelo sucesso político. O Presidente dos Estados Unidos comunicou mui claramente que não acredita que sua santidade pessoal seja um fator significante em sua liderança desta nação3. A maneira desdenhosa com que muitas igrejas tratam um comportamento sexual decente é um eco da mesma doença. John Owen deveria ser aplicado tanto no cenário nacional quanto no eclesiástico.

John Owen é um bom conselheiro e modelo para nós neste assunto de santidade porque ele não era um eremita. Freqüentemente pensamos que algumas pessoas têm o prazer monástico de simplesmente saírem da confusão da vida pública e tornarem-se pessoas santos. Não eram assim que os Puritanos da época de Owen agiam. J.I. Packer diz que o Puritanismo foi “um monasticismo reformado, fora do claustro e longe dos votos monásticos”. Isto é especialmente verdadeiro de Owen.

Seu contemporâneo, Richard Baxter, chamou Owen de “o grande obreiro.” Ele vivia exposto ao público. Ele estava envolvido na administração acadêmica; tinha a política sempre aos seus ouvidos; se envolveu com os oficiais da liderança militar do país; estava envolvido em controvérsias sobre todos os tipos de assuntos, desde a autenticidade dos sinais vocálicos do hebraico e a Epístola de Inácio às leis nacionais de tolerância e a natureza da justificação; participou de centenas de ministérios congregacionais independentes, como seu porta-voz à nível nacional; ele fez tudo isto enquanto pastoreava as pessoas – e não se esqueça, perdendo um filho a cada três anos.

E todos nós sabemos que uma vida como esta é uma luta contra o criticismo, que pode quebrar o próprio espírito e fazer a busca pela santidade pessoal duplamente difícil. Quando seus adversários não podiam superá-lo em argumentação, eles apelavam para o assassinato do caráter. Ele foi chamado de “o grande líder da perturbação e sedição...uma pessoa que competia com Maomé, por sua agressividade e impostura... uma víbora, tão cheia de peçonha que deve logo morder ou derramar seu veneno.” E ainda mais doloroso e desanimador é o criticismo de amigos.

Certa vez, ele recebeu uma carta de John Eliot, o missionário aos índios na América, que o machucou, ele disse, mais que qualquer um de seus adversários: O que recebi de você... me marcou profundamente e deixou uma impressão bem maior em minha mente, mais do que todas as calúnias virulentas e falsas acusações que já recebi de meus adversários professos...Que eu deveria agora ser acusado para causar uma ferida para santidade nas igrejas, é um dos mais tristes franzimentos na fronte turva da Providência Divina.

Adicione a isto às dificuldades diárias de viver em um mundo pré-tecnológico, sem qualquer conveniência moderna, atravessando duas grandes pragas, uma das quais matou 70.000 do meio milhão de habitantes de Londres em 1665, mais os 20 anos vivendo fora da proteção da lei – assim, sabemos que a santidade de John Owen não funcionou apenas em momentos de conforto, prazer e segurança. Quando um homem como este, dadas estas circunstâncias, é lembrado e exaltado por séculos devido à sua santidade pessoal, deveríamos escutá-lo.  

John Piper

John Owen - Fecundidade em meio a Pressão -


Se desejar leia o primeiro artigo - John Owen - Um Primeiro Olhar

O que começou a me impressionar, à medida que aprendia quão pública e quão administrativamente carregada era a vida de Owen, foi que ele era capaz de continuar estudando e escrevendo, a despeito de tudo, e em parte por causa de tudo.

Em Oxford, Owen era responsável pelos serviços de adoração, pois a Igreja de Cristo era uma catedral, bem como uma faculdade, e ele era o pregador. Ele era responsável pela escolha de estudantes, a nomeação de capelães, a provisão de facilidades tutoriais, a administração de disciplina, a supervisão da propriedade, a cobrança de aluguéis e dízimos, a doação de possessões e o cuidado dos carentes no hospital da igreja, mas o seu objetivo principal, em toda a sua vida, diz Peter Toon, era “estabelecer a vida inteira da Faculdade sobre a Palavra de Deus”.

Sua vida era simplesmente sobrepujada pela pressão. Eu não posso imaginar que tipo de vida familiar ele tinha, e durante o tempo em que suas crianças estavam morrendo (sabemos que pelo menos dois filhos morreram na praga de 1655). Quando ele terminou seus deveres como Vice-Chanceler, ele disse na conclusão do seu discurso, Os labores têm sido inumeráveis; além de submeterem a enormes gastos, frequentemente quando trazido à beira da morte por sua causa, tenho odiado estes membros e este corpo débil com o qual estava pronto a abandonar minha mente; as censuras dos plebeus têm sido indiferentes; a inveja dos outros tem sido sobrepujada: nestas circunstâncias eu desejo a vocês toda prosperidade e dou adeus.

A despeito de toda esta pressão administrativa, e até mesmo hostilidade, por causa de seu compromisso com a piedade e com a causa Puritana, ele estava constantemente estudando e escrevendo, provavelmente até tarde da noite, em vez de dormir. Isto mostra quão preocupado ele era com a fidelidade doutrinária às Escrituras. Peter Toon lista 22 obras publicadas durantes estes anos. Por exemplo, ele publicou sua defesa da Perseverança dos Santos em 1654. Ele viu um homem chamado John Goodwin espalhando erro sobre esta doutrina e sentiu-se constrangido, mesmo com todos os seus outros deveres, a respondê-lo – com 666 páginas! Este livro preenche todo o volume 11 em suas Works. E ele não escrevia felpas que desapareciam durante a noite. Um biógrafo dele disse que este livro é “a vindicação mais magistral da perseverança dos santos na língua inglesa”.

Durante estes anos administrativos ele escreveu também Of the Mortification of Sin in Believers [Sobre a Mortificação do Pecado nos Crentes] (1656), Of Communion with God[Sobre a Comunhão com Deus] (1657), Of Temptation: The Nature and Power of It [Sobre a tentação: A Natureza e o Poder dela] (1658). O que é impressionante sobre estes livros é que eles são o que poderia ser chamado de intensamente pessoais e em muitos lugares muito suaves. Assim, ele não estava apenas lutando batalhas doutrinárias; ele estava lutando contra o pecado e a tentação. E ele não estava apenas lutando, ele estava tentando encorajar uma profunda comunhão com Deus em seus estudantes.

Ele foi aliviado dos seus deveres de Deão em 1660 (tendo renunciado a Vice-Chancelaria em 1657). Cromwell tinha morrido em 1658. A monarquia com Charles II estava de volta. O Ato da Uniformidade, que removeu 2.000 Puritanos dos seus púlpitos, estava às portas (1662). Os dias seguintes para Owen, agora, não seriam os grandes dias políticos e acadêmicos dos últimos 14 anos. Ele era agora, de 1660 até sua morte em 1693, um tipo de pastor fugitivo em Londres.

Durante estes anos ele se tornou o que alguns têm chamado de o “Atlas e o Patriarca da Independência”. Ele se tornou persuadido de que a forma Congregacional de governo era mais bíblica. Ele foi o principal porta-voz desta ala da Não-conformidade, e escreveu extensivamente para defender a visão.

Mas, ainda mais significante, ele foi o principal porta-voz da tolerância, tanto da forma Presbiteriana como Episcopal. Mesmo enquanto em Oxford, ele tinha a autoridade para acabar com a adoração Anglicana, mas ele permitiu um grupo de Episcopais adorar em salas do outro lado dos seus próprios quartos. Ele escreveu numerosos tratados e livros pedindo a tolerância dentro da Ortodoxia. Por exemplo, em 1667 ele escreveu (em in Indulgence and Toleration Considered [Indulgência e Tolerância Consideradas]):

Parece que somos um dos primeiros que, em algum lugar no mundo, desde a fundação deste, pensou em arruinar e destruir pessoas da mesma religião que a nossa, meramente pela escolha de algumas formas peculiares nesta religião.

Suas idéias de tolerância eram tão significantes que elas tiveram uma larga influência sobre William Penn, o Quaker e fundador de Pensilvânia, que foi um estudante de Owen. E é significante para mim, como um Batista, que ele tenha escrito em 1669, com vários outros pastores, uma carta de interesse para o governador e congregacionalistas de Massachusetts, suplicando-lhes para não perseguir os Batistas.


Ministério Pastoral

Durante estes 23 anos após 1660, Owen foi um pastor. Por causa da situação política, ele não era sempre capaz de estar num único lugar e com o seu povo, mas ele parecia carregá-los em seu coração, mesmo quando viajava de um lugar para outro. Perto do fim de sua vida, ele escreveu ao seu rebanho, “Embora esteja ausente de vocês em corpo, estou em mente, afeição e espírito presente com vocês, e em suas assembléias; pois espero que vocês sejam minha coroa e regozijo no dia do Senhor”.

Não somente isto; ele ativamente aconselhou e fez planos para o cuidado deles em sua ausência. Ele aconselhou-lhes em uma carta com palavras que são maravilhosamente relevantes para a luta do cuidado pastoral em nossas igrejas hoje: Rogo-vos que ouçam uma palavra de aviso em caso de aumento de perseguições, que provavelmente acontece por um período de tempo indefinido. Eu desejaria, visto que vocês não têm presbíteros regentes, e seus professores não podem passear publicamente com segurança, que vocês apontassem alguém entre vocês mesmos, que possa continuamente, à medida que suas ocasiões admitam, ir de casa em casa e se aplicarem peculiarmente aos fracos, tentados e temerosos, àqueles que estão prontos a se desesperar ou a parar, para encorajá-los no Senhor. Escolham para este fim aqueles que possuem um espírito de coragem e fortaleza; e deixe-os saber que eles são felizes, a quem Cristo honrará com Sua bendita obra. Eu desejo que as pessoas desse grupo sejam homens fiéis, e conheçam o estado da igreja; através disto vocês saberão qual é a estrutura dos membros da igreja, que será uma grande direção para vocês, mesmo em suas orações.

Sob circunstâncias normais Owen cria e ensinava que, “O primeiro é principal dever de um pastor é alimentar o rebanho pela diligente pregação da Palavra”. Ele apontava para Jeremias 3:15 e o propósito de Deus de “dar à Sua igreja pastores segundo o seu próprio coração, que os apascentariam com conhecimento e entendimento”. Ele mostrava que o cuidado da pregação do evangelho foi confiado a Pedro, e através dele, a todos os verdadeiros pastores da igreja, sob o nome de “apascentar” (João 21.15,16). Ele citava Atos 6 e a decisão dos apóstolos de se livrarem de todas as incumbências que haviam sido dadas a eles, para se dedicarem inteiramente à palavra e à oração. Ele se referia à 1 Timóteo 5.17 para demonstrar que é obrigação do pastor “trabalhar na palavra e na doutrina”, e à Atos 20.28 onde os responsáveis pelo rebanho devem apascentá-los com a Palavra.

E então, ele diz: “Não é requerido apenas que ele pregue agora e então descanse; mas que ele deixe todos os outros trabalhos, mesmo permitidos, todas as outras atividades na igreja, cuja uma constante atenção à elas o distrairia do seu trabalho, ao qual ele se entregou... Sem isto, nenhum homem será capaz de prestar contas do seu trabalho pastoral de uma maneira agradável no último dia”. Acho que seria justo dizer que Owen atendeu plenamente este desafio durante aqueles anos, sempre que a situação política o permitiu.

Owen e Bunyan

Não está claro para mim porque alguns puritanos naquela época estavam na prisão, e outros, como Owen, não. Parte da explicação é o quão abertamente eles pregavam. Parte é que Owen foi uma figura nacional com conexões com os altos cargos. Outra parte é que a perseguição não foi nacionalmente uniforme, mas alguns oficiais locais eram mais rigorosos do que outros.

Mas não importa a explicação disso, é notável o relacionamento que John Owen teve nestes anos com John Bunyan, que gastou muitos deles na prisão. Uma história conta que o Rei Charles II perguntou a Owen certa vez por que ele se importava em ouvir a pregação de um “funileiro” sem educação como Bunyan. Owen respondeu “Pudesse eu possuir a habilidade para pregar deste funileiro, vossa majestade, alegremente abriria mão de todo o meu aprendizado”.

Uma das melhores ilustrações da face sorridente de Deus por trás de uma providência carrancuda é a história de como Owen falhou em ajudar Bunyan a sair da prisão.

Repetidamente quando Bunyan estava na prisão, Owen lutou por sua libertação com todas as forças que ele podia usar. Mas não foi possível. Porém, quando John Bunyan foi libertado em 1676, trouxe consigo um manuscrito “de uma dignidade e importância que quase não podia ser compreendida”. De fato, Owen encontrou-se com Bunyan e o recomendou a seu editor, Nathaniel Ponder.

A parceria deu certo e o livro muito provavelmente, depois da Bíblia, é o mais publicado no mundo – tudo porque Owen falhou em suas tentativas de libertar Bunyan, e porque ele obteve sucesso em encontrar-lhe um editor. A lição: “Não julge o Senhor com débil entendimento, Mas confie nele para sua graça. Por trás de uma providência carrancuda, Ele oculta uma face sorridente”.

Morte

Owen morreu em 24 de Agosto de 1683. Ele foi enterrado em 4 de Setembro, no Bunhill Fields, Londres, onde cinco anos mais tarde o Pensador e “Imortal Sonhador da Prisão de Bedford” seria enterrado com ele. Foi decidido que os dois descansassem unidos, após o longo trabalho do Gigante Congregacional pela causa da tolerância dos batistas pobres na Inglaterra e na Nova Inglaterra. 


John Owen - Um Primeiro Olhar -


A maioria das pessoas – sejam pastores ou teólogos – não conhecem muito sobre John Owen.

Uma das razões é que seus escritos não são populares hoje . Mas outra razão é que não se é conhecido muito sobre ele – pelo menos não muito sobre sua vida pessoal. Peter Toon, em sua biografia de 1971, diz, “Nenhum dos diários de Owen foram preservados; e… as  cartas existentes nas quais ele revela sua alma são mui poucas, e reações aos outros,  registradas e pessoais, são breves e escassas... Temos que depender de umas  poucas cartas e um pouco de observações de outros para procurar entendê-lo como homem. E  estas são insuficientes para sondar as profundezas do seu caráter".

Assim, Owen permanece oculto como se estivesse através de um véu...seus pensamentos secretos permanecem só seus”  Penso que isto pode ser um pouco equivocado, pois quando você lê as obras mais práticas de Owen, o homem brilha através de uma forma que, penso, revela os lugares profundos do seu  coração. Mas, os detalhes de sua vida pessoal ainda são frustrantemente poucos. Você verá isto – e compartilhará minha frustração – no que se segue.

Owen nasceu na Inglaterra em 1616, o mesmo ano em que William Shakespeare morreu e  quatro anos antes dos Peregrinos viajarem para a Nova Inglaterra. Isto foi virtualmente no meio do grande século Puritano (aproximadamente de 1560 a 1660).

O Puritanismo foi, em seu cerne, um movimento espiritual, apaixonadamente preocupado com Deus e a piedade. Ele começou na Inglaterra com William Tyndale, o tradutor da Bíblia, contemporâneo de Lutero, uma geração antes da palavra “puritano” ser cunhada, e continuou até os últimos anos do século XVII, algumas décadas antes do termo “puritano” cair em desuso...O Puritanismo foi essencialmente um movimento para a reforma da igreja, para a renovação pastoral e evangelística, e para o reavivamento espiritual...

O objetivo puritano era completar o que a Reforma da Inglaterra começou: terminar a reforma da adoração anglicana, introduzir uma disciplina de igreja efetiva nas paróquias anglicanas, estabelecer a justiça nos campos políticos, domésticos e sócio-econômicos, e converter todos os cidadãos ingleses a uma fé evangélica vigorosa.

Owen nasceu no meio deste movimento e se tornou seu maior pastor-teólogo, à medida que o movimento terminou quase que simultaneamente com a sua morte, em 1683.

Seu pai foi pastor em Stadham, cinco milhas ao norte de Oxford. Ele teve três irmãos e uma irmã. Em todos os seus escritos ele não menciona sua mãe ou seus irmãos. Há uma única breve referência ao seu pai, que diz, “Desde a minha infância estive debaixo dos cuidados do meu pai, que foi um não-conformista durante todos os seus dias, e um árduo trabalhador na vinha do Senhor”.

Com a idade de 10 anos, ele foi enviado para a escola primária dirigida por Edward Sylvester em Oxford, onde ele se preparou para a universidade. Ele entrou no Queens College, Oxford, com a idade de 12 anos, e recebeu o seu Bacharel em Artes2 aos 16 anos e seu M.A. (Mestre de Artes) três anos mais tarde, aos 19 anos de idade. Nós podemos ter uma idéia de como o garoto era a partir de uma observação feita por Peter Toon, de que o zelo de Owen por  conhecimento era tão grande neste tempo que “ele freqüentemente permitia a si mesmo somente quatro horas de sono por noite. Sua saúde foi afetada, e mais tarde na vida, quando ele estava freqüentemente doente numa cama, ele lamentou estas horas de descanso que ele perdeu quando jovem” .

Owen começou sua obra para B.D. (Bacharel em Divindade), mas não pôde mais suportar o Arminianismo e o formalismo da igreja-alta de Oxford e retirou-se para se tornar tutor pessoal e capelão de algumas famílias ricas perto de Londres.

Em 1642, a Guerra Civil começou entre o Parlamento e o Rei Charles (entre a religião da igreja-alta de William Laud e a religião puritana dos Presbiterianos e Independentes na Câmara dos Comuns). Owen estava simpatizado com o Parlamento contra o rei e Laud, e assim, ele foi tirado de sua capelania e transferido para Londres, onde os cinco eventos principais de sua vida aconteceram nos quatro anos seguintes, os quais marcaram o resto de sua vida.

Cinco Eventos que Marcaram o Resto de Sua Vida
A. Conversão

O primeiro é sua conversão – ou sua certeza de salvação e aprofundamento de sua comunhão pessoal com Deus. É notável que esta aconteceu de uma maneira quase idêntica à conversão de Charles Spurgeon, dois séculos mais tarde. No dia 06 de Janeiro de 1850, Spurgeon foi parar, devido a uma tempestade de neve, numa Capela Metodista Primitiva, onde um leigo estava substituindo o pastor e pregou sobre o texto de Isaías 45:22, “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os confins da terra”. Spurgeon olhou e foi salvo.

Owen era um calvinista convicto com amplo conhecimento doutrinário, mas lhe faltava o sentimento da realidade de sua própria salvação. Este sentimento de realidade pessoal em tudo o que ele escreveu ia fazer toda a diferença do mundo para Owen nos anos vindouros. Assim, o que aconteceu num Domingo de 1642, é muito importante.

Quando Owen tinha 26 anos de idade, ele foi com seu primo ouvir o famoso Presbiteriano Edmund Calamy, na Igreja de St. Mary Aldermanbury. Mas Calamy não pôde pregar e um pregador rural tomou o seu lugar. O primo de Owen queria ir embora. Mas algo segurou Owen em seu assento. O pregador simples tomou o texto de Mateus 8:26, “Por que temeis, homens de pouca fé?”. Foi a palavra e o tempo apontados por Deus para o despertamento de Owen. Suas dúvidas, temores e preocupações, de que se ele era realmente alguém nascido de novo pelo Espírito Santo, foram embora. Ele sentiu-se libertado e adotado como um Filho de Deus. Quando você lê as penetrantes obras de Owen sobre a obra do Espírito e a natureza da verdadeira comunhão com Deus, é difícil ter dúvida sobre a realidade do que Deus fez neste Domingo de 1642 .

B. Casamento

O segundo evento crucial naqueles primeiros anos em Londres, foi o casamento de Owen com uma jovem mulher chamada Mary Rooke. Ele foi casado com ela por 31 anos, de 1644 a 1675. Não conhecemos virtualmente nada sobre ela. Mas sabemos um fato absolutamente impressionante que deve ter colorido todo o ministério de Owen pelo resto de sua vida (ele morreu oito anos após ela morrer). Sabemos que ela lhe deu 11 filhos, e todos, exceto uma filha, morreram quando crianças, e esta filha morreu quando era ainda uma jovem adulta. Em outras palavras, Owen experimentou a morte de 11 filhos e de sua esposa! É uma média de uma criança nascida e uma criança perdida a cada três anos da vida adulta de Owen.

Não temos nenhuma referência à Mary ou às crianças, ou à sua dor em todos os seus livros. Mas, apenas saber que este homem andou no vale da sombra da morte na maior parte de sua vida, me dá um sinal da profundidade de lidar com Deus que encontramos em suas obras. Deus tem suas formas estranhas e dolorosas de nos fazer o tipo de pastores e teólogos que Ele deseja que sejamos. 

C. Primeiro Livro

O terceiro evento nestes primeiros anos em Londres foi a publicação de seu primeiro livro.

Ele tinha lido a fundo sobre a controvérsia recente na Holanda entre os Remonstrantes (a quem ele chamava de Arminianos) e os Calvinistas. O Remonstrance foi escrito em 1610 e a resposta Calvinista foi o Sínodo de Dordt em 1618. A despeito de todas as suas diferenças, Owen considerou a Igreja-Alta Inglesa de William Laud e os Remonstrantes Holandeses como essencialmente um, em sua rejeição da predestinação, a qual para Owen se tornou absolutamente crucial, especialmente na conversão, a qual ele atribuía totalmente a Deus.

Assim, ele publicou seu primeiro livro em Abril de 1643 com o polêmico título, semelhante a um prefácio, A Display of Arminianism: being a discovery of the old Pelagian idol, free-will, with the new goddess, contingency, advancing themselves into the throne of God in heaven to the prejudice of His grace, providence and supreme dominion over the children of men [Uma Demonstração do Arminianismo: sendo uma descoberta do antigo ídolo pelagiano, o livre-arbítrio, com uma nova deusa, a contingência, avançando eles mesmos para o trono de Deus no céu, para o prejuízo de Sua graça, providência e domínio supremo sobre os filhos dos homens].

Isto é importante, não somente porque ele apresenta sua direção como um Calvinista, mas como um escritor público e controverso, cuja vida inteira seria tomada pela escrita, até o último mês de sua vida, em 1683.

D. Tornando-se um pastor

O quarto evento crucial naqueles anos foi o fato de Owen se tornar pastor de uma pequena paróquia em Fordham, Essex, em 16 de Julho de 1643. Ele não permaneceu muito tempo nesta igreja. Mas eu a menciono, pois ela fixou o curso de sua vida como um pastor. Ele sempre foi essencialmente um pastor, mesmo quando envolvido com administração na Universidade de Oxford e mesmo quando envolvido com eventos políticos de seus dias. Ele era tudo, menos um acadêmico enclausurado. Todos os seus escritos foram feitos na pressão de deveres pastorais. Há pontos em sua vida onde isto parece absolutamente espantoso – como, por exemplo, o fato dele poder continuar estudando e escrevendo, mesmo com o tipo de envolvimentos que ele tinha.

E. Dirigindo-se ao Parlamento

O quinto evento destes primeiros anos em Londres foi o convite, em 1646, para falar ao Parlamento. Naqueles dias havia dias de jejum durante o ano, quando o governador pedia a certos pastores para pregar na Câmara dos Comuns. Era uma grande honra. Esta mensagem catapultou Owen para os assuntos políticos nos 14 anos seguintes.

Owen chamou a atenção de Oliver Cromwell, o líder governamental (“Protetor”) na ausência do rei, e Cromwell é conhecido por ter dito a Owen, “Senhor, você é uma pessoa que eu devo conhecer”; ao que Owen replicou, “isto será muito mais vantajoso pra mim do que para você”.

Bem, talvez sim e talvez não. Com este conhecimento Owen foi lançado no tumulto da guerra civil. Cromwell fez dele o seu capelão e o levou para Irlanda e Escócia, para pregar às suas tropas e avaliar a situação religiosa nestes países.

Cromwell não somente apontou Owen, em 1651, como Deão da Faculdade Igreja de Cristo, em Oxford, bem como fez dele também, no ano seguinte, o Vice-Chanceler. Ele esteve envolvido com Oxford por nove anos até 1660, quando Charles II retornou, e as coisas começaram a ficar muito ruins para os Puritanos.  

 John Piper