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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Que significa Humanismo? – M. Lloyd-Jones



Eu não poderia dar uma definição melhor do que a que está expressa nestas palavras de Isaías: "Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e inteligentes na sua própria opinião!" Humanismo é a crença na humanidade. E o interesse ape¬nas nos homens e mulheres, sem levar Deus em consideração. Ele exclui Deus porque crê que os seres humanos são suficientes em si mesmos. Esta é a verdadeira essência do Humanismo. O homem é o centro do universo, e não há nada maior nem mais grandioso.

Existem dois tipos principais de Humanismo: o que é chamado de "Humanismo clássico", o que significa que para sua direção na vida e entendimento da mesma você não vai à Bíblia, mas retorna à literatura, à filosofia, ao drama e à poesia gregos. Os humanistas clássicos são pessoas que estudam os grandes autores gregos e conduzem sua vida de acordo com seus ensinos.

Não é função do ensino cristão desacreditar os gregos. Eles foram realmente grandes homens. O Humanismo, porém, clássico ensina que não há nada além deles, e que se você desejar sabedoria deve retroceder ao pensamento e à meditação dessas mentes gigantes do passado. Você os estuda e raciocina com eles, e tenta entender o que pensavam e o que nos deixaram. Procura, então, pôr aquilo em prática. Este é, no mundo presente, o modo de viver uma vida boa e harmoniosa.

A outra forma que o Humanismo toma é a conhecida como "Humanismo científico". O clássico representa o poético, o filosófico, e assim por diante. Por outro lado existe a perspectiva científica, a abordagem que diz que a resposta para os problemas do mundo não virá da filosofia grega ou poética mas da percepção científica de todo o universo, incluindo os seres humanos.

Este é o mais moderno dos dois tipos de Humanismo. Ele reivindica ser novo porque as descobertas são, no mínimo, comparativamente recentes, retrocedendo pouco menos que uns 400 anos, no máximo. Ao investigar os mistérios do universo e sua constituição, você descobre a verdade científica sobre a vida, e, a partir daí, começa a trabalhar seu próprio esquema de vida.

Temos que examinar isso porque, aqui em Isaías, está dito que esta confiança na sabedoria humana leva ao "ai". Mas vamos ser claros sobre isso. Não é parte da argumentação pró-evangelho pregar a desvalorização do intelecto. Na verdade, isto é o oposto do ensino do Evangelho. O Evangelho dá muito valor ao intelecto. Que ninguém pense que o que Isaías quer dizer é que não há nenhum valor em se ter um cérebro, ou na habilidade em usá-lo, ou no entendimento, no poder da razão, e assim por diante. Não se trata disso. Não há nada errado com o intelecto ou com o saber em si. Na verdade, a Bíblia diz-nos que o mais alto dom que Deus deu a homens e mulheres no campo dos talentos - não estou falando da alma e do espírito, mas de dons, - é o da mente, da razão e do entendimento.

O que é verdadeiramente maravilhoso sobre os seres humanos é que eles podem contemplar-se a si mesmos, analisar-se, avaliar-se e criticar-se a si próprios. Este é um tremendo dom, segundo a Bíblia, dado por Deus. Então, não devemos dizer nada que desvalorize o intelecto, a razão ou a mente. O pregador cristão não é apenas um sentimentalista ou um obscurantista. Não é apenas um homem que conta histórias e tenta divertir as pessoas. Ele está aqui para raciocinar com elas, porque Deus lhe deu uma mente para ser usada. Mas, como vou mostrar, a verdadeira explicação para o problema do mundo é o fato de que as mentes se corromperam, e o homem não sabe como usá-la adequadamente.

Qual é, então, a atitude da Bíblia com relação ao Humanismo? E que, conquanto esteja tudo certo com a mente, o entendimento e a razão, o erro das pessoas está em colocarem sua confiança na mente. Elas têm tanto orgulho dela que começam a adorá-la. Pensam que é suficiente em si mesma, e nada além é necessário. O problema tem início quando começam a se gabar da razão e a acreditar que, com sua mente, podem envolver o cosmos inteiro. Esta afirmativa de Isaías define perfeitamente essa questão - "Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos." Eles se colocaram num pedestal. "Olhe para mim" - dizem -, "não sou mesmo maravilhoso?" "Sábios a seus próprios olhos, e inteligentes na sua própria opinião." Não há nada errado em ser sábio, mas, se você for sábio a seus próprios olhos, estará em uma situação muito perigosa. É excelente ser inteligente, mas, se você for inteligente na sua própria opinião, estará sob a condenação proferida pelo profeta.

Eu creio que isto ficou claro. Longe de querer dizer que não há valor no intelecto, o que desejo é usar o pouco que tenho, e vou pedir-lhe que faça o mesmo!

Por que Deus pronuncia um "ai" sobre aqueles que são sábios a seus próprios olhos, e adoram seu cérebro e entendimento: os humanistas? A primeira resposta é a de que esta é a própria essência de seus problemas e males; esta é a causa principal de todos os males da raça humana. Leia a Bíblia e verá que ela diz que este foi seu pecado original, e assim tem sido desde então. A tentação que primeiro veio ao homem e à mulher, como já vimos, foi: "Será que Deus disse?" (Gênesis, 3:1). Em outras palavras: Será que Deus está tentando reprimi-lo? Estará tentando colocar-se entre você e o conhecimento do bem e do mal? Será que está buscando esconder algo de você?

"Está" - disse o diabo -, "porque ele sabe que, se vocês comerem do fruto, vocês serão deuses, terão entendimento, saberão tudo, serão iguais a ele."

Este foi o primeiro pecado do homem, e tem sido a causa de todos os males subseqüentes.

Como Ensinar e Pregar "Calvinismo" – John Piper



1. Seja rigorosamente textual em todas suas exposições e explanações e defesas dos ensinos Calvinistas. Torne-o todas as vezes um assunto textual, não um assunto lógico ou de experiência.

2. Não seja estridente, mas gentil. Assuma que trabalhar estes grandes assuntos até à convicção pode levar anos e que estar no processo é um bom começo.

3. Fale de seu próprio quebrantamento com respeito à estas coisas e como elas são preciosas para você e porque e como elas ministram à sua alma e ajudam você a viver sua vida.

4. Faça de Spurgeon e Whitefield seus modelos antes do que Owen ou Calvino, porque os primeiros foram evangelistas e ganharam muitas pessoas para Cristo de um modo que está mais próximo de nossos dias.

5. Seja um evangelista e um mobilizador de missões de forma que as críticas de que o Calvinismo entorpece uma paixão pelos perdidos sejam postas em silêncio.

6. Trabalhe os cinco pontos a partir do "I" no TULIP e não do "U". Isto é, mostre ao povo que eles não querem realmente tomar o crédito final pela sua vinda a Cristo. Eles não querem estar diante de Deus no dia do julgamento e responder à questão, "Porque você creu e outros com suas oportunidades não"? com a resposta, "Bem, eu suponho que eu era mais esperto, ou mais espiritual". Eles querem dizer, "Pela graça eu fui trazido à fé". Que é a "graça irresistível". Isto é, graça que triunfa sobre toda resistência até o fim.

7. Regozije-se por causa das críticas. Aquele que conhece e descansa na soberana graça de Deus deve ser o santo mais feliz. Não seja um anunciador amargo, melancólico, hostil ou falso para a glória da graça de Deus. Louve-a. Regozije-se nela. E não deixe que se torne um espetáculo. Faça isto no seu quarto secreto até que isto seja derramado sobre o púlpito e áreas públicas.

8. Não cavalgue sobre o que não está no texto. Pregue exegeticamente, explanando e aplicando o que está no texto. Se isto soar Arminianismo, que soe Arminianismo. Confie no texto e o povo confiará em você por ser fiel ao texto.

9. Evite jargões teológicos que não estejam no texto. A palavra "Calvinismo" provavelmente não é de grande auxílio. "Doutrinas da graça" pode não ser também. Simplesmente se prenda com o que está no texto, ou sugira algumas novas frases impressionantes que farão com que os povos fiquem maravilhados e sejam excitados.

10. Conte histórias e experiências biográficas e das vidas de santos vivos que ilustrem a dependência deles da soberania de Deus. Especialmente histórias relacionadas às missões e evangelismo e santidade de vida.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Caminho da Fidelidade não é uma Linha Reta – John Piper


Outra grande lição de como a soberania da graça de Deus conduz à paciência é a história de como o templo foi reconstruído após o exílio babilônico. A maneira em que Deus age para transformar as coisas é tão surpreendente que ele mesmo deve ter sorrido. Israel esteve no exílio por décadas. Agora tinha chegado a hora, no planejamento divino, do retorno deles à terra prometida. Como isso poderia acontecer? Esta era, sem dúvida, a pergunta na mente de muitos judeus no esforço de serem pacientes em relação ao tempo de Deus. A resposta é a soberania divina sobre a vontade dos imperadores. Esdras nos conta: "no primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, a fim de que se cumprisse a palavra do SENHOR falada por Jeremias, o SENHOR despertou o coração de Ciro, rei da Pérsia [.,.] para construir um templo para ele em Jerusalém de Judá" (Esdras 1.1,2). Isso é absolutamente espantoso. Do nada, Deus move o coração de Ciro para que ele preste atenção nesse minúsculo povo chamado judeu, e o envia a Jerusalém para construir seu templo. Quem teria sonhado que isso pudesse acontecer desse modo? Talvez os que tivessem fé na graça futura. Mas o melhor ainda estava por vir.

Mais de 42 mil refugiados judeus voltam e recomeçam a construir o templo em Jerusalém. Imagine a alegria. Mas cuidado. O caminho da fidelidade raramente é uma linha reta para a glória. Seus inimigos em Jerusalém se opõem a eles e os desencorajam: "Então a gente da região começou a desanimar o povo de Judá e a atemorizá-lo, para que não continuasse a construção. Pagaram alguns funcionários para que se opusessem ao povo e frustrassem o seu plano. E fizeram isso durante todo o reinado de Ciro até o reinado de Dario, reis da Pérsia" (Esdras 4.4,5). Imagine a decepção e a impaciência do povo. Aparentemente Deus lhes abrira a porta para a reconstrução, e agora surgia a oposição paralisante.

Contudo, Deus possuía outro plano. E isso ocorreu para que pessoas com fé na graça futura pudessem enxergar o que simples olhos físicos não conseguem ver! Sim, o povo da terra interrompeu a construção. Mas não podemos confiar em Deus que a mesma soberania que moveu Ciro também prevaleça sobre os oponentes locais? Somos tão lentos em aprender a lição da graça soberana de Deus! Em Esdras 5.1, Deus envia dois profetas, Ageu e Zacarias, para inspirar o povo a recomeçar a construção. É verdade, os inimigos ainda estão ali. Eles tentam novamente interromper a construção do templo. Escrevem uma carta a Dario, o novo imperador. Mas o tiro sai totalmente pela culatra, e agora vemos por que Deus permitiu a pausa temporária da reconstrução.

Em vez concordar com a carta e interromper a construção do templo, Dario fez uma busca nos arquivos e encontrou o decreto original de Ciro que autorizara a construção do templo. O resultado foi espantoso. Ele respondeu com uma notícia que superou a imaginação ou os pedidos deles. Ele disse aos inimigos de Judá: "Não interfiram na obra que se faz nesse templo de Deus. [...] Além disso, promulgo o seguinte decreto a respeito do que vocês farão por esses líderes dos judeus na construção desse templo de Deus: As despesas desses homens serão inte¬gralmente pagas pela tesouraria do rei, do tributo recebido do território a oeste do Eufrates, para que a obra não pare" (Esdras 6.7,8). Em outras palavras, Deus ordenou um revés por uma época, para que o templo não fosse só reconstruído, mas pago por Dario! Se a fé pudesse captar esse tipo de graça futura, não estaria vencida a impaciência?

E para que não duvidemos que tudo isso era de fato plano de Deus, Esdras 6.22 afirma abertamente esse grande fato: "...o SENHOR os enchera de alegria ao mudar o coração do rei da Assíria, levando-o a dar-lhes força para realizarem a obra de reconstrução do templo de Deus, o Deus de Israel". Se William Cowper (1731-1800) já tivesse escrito seu grandioso hino: "God Moves in a Mysterious Way" ["Deus age de forma misteriosa"], penso que o povo de Israel o teria cantado.

Não julguem o Senhor pelos seus débeis sentidos, mas confiem na graça dele; por trás da providência sombria ele esconde um sorriso no rosto.

Viver pela fé na graça futura significa crer que "o coração do rei é como um rio controlado pelo SENHOR; ele o dirige para onde quer" (Provérbios 21.1). Deus fez isso com Ciro (Esdras 1.1); ele fez isso com Dario (Esdras 6.22) e mais tarde o fez com Artaxerxes: "Bendito seja o SENHOR, O Deus de nossos antepassados, que pôs no coração do rei o propósito de honrar desta maneira o templo do SENHOR em Jerusalém" (Esdras 7.27). Deus governa o mundo. Ele rege a história. E tudo isso ele faz para o bem do seu povo e para a glória do seu nome. "Desde os tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvido percebeu, e olho nenhum viu outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele esperam' (Isaías 64.4). O poder da paciência flui por meio da futura e soberana graça de Deus.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Livres do cativeiro do medo da morte – John Piper



Esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espirito, que em vós habita Romanos 8.11


Visto que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida. Hebreus 2.14,15


Jesus chamou Satanás de assassino. "Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade... é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8.44). Mas o maior interesse do diabo não é matar. Ele quer condenar ao inferno. Na verdade, Satanás prefere que seus seguidores tenham aqui vida longa e feliz - para debochar dos santos que sofrem e esconder os horrores do inferno.

Seu poder de condenar os seres humanos não está nele mesmo, mas nos pecados que ele inspira e nas mentiras que ele conta. A única coisa que condena alguém ao inferno é o pecado não perdoado. Maldições, encantamentos, vudu, macumbas, sessões espíritas, magia negra, aparições, vozes - nada disso sozinho lança a pessoa no inferno. São apenas os sinos e apitos do diabo. A única arma letal que Satanás possui é o poder de nos enganar. Sua principal mentira é que a exaltação de si mesmo seja mais desejá¬vel do que a exaltação de Cristo, e o pecado seja preferível à santidade. Se essa arma pudesse ser retirada de sua mão, ele não teria mais o poder da morte eterna.

Cristo veio para isso - tirar a arma da mão de Satanás. Para tanto, Cristo tomou sobre si os nossos pecados e sofreu por eles. Quando isso aconteceu, eles não podiam mais ser usados pelo diabo para nos destruir. Zombar de nós? Sim. Debochar de nós? Sim. Mas nos condenar ao inferno? Não. Cristo veio e levou a maldição em nosso lugar. Por mais que ele tente, Satanás não pode nos destruir. A ira de Deus foi removida. Sua misericórdia é o nosso escudo. E Satanás não obterá sucesso contra nós.

Para realizar essa libertação, Cristo teve de tomar a natureza humana porque, sem ela, ele não poderia experimentar a morte. Só a morte do Filho de Deus poderia destruir aquele que tinha o poder da morte. Assim, a Bíblia diz: "Visto... que os filhos têm participação comum de carne e sangue [tinham uma natureza humana] destes também ele, igualmente, participou [assumiu uma natureza humana] para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo" (Hb 2.14). Quando Cristo morreu pelos pecados, tomou da mão do diabo a única arma que este tinha contra nós: o pecado não perdoado.

Ao fazer isso, era meta de Cristo livrar-nos do medo. Ao morrer ele libertou "... todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida" (Hb 2.14). O medo da morte escraviza. Ele nos faz tímidos e apagados. Jesus morreu para livrar-nos. Quando esse medo da morte é destruído por um ato de amor e sacrifício próprio, é quebrada a escravidão chata e egocêntrica da auto-preservação. Somos livres para amar como Cristo, ainda que ao preço de nossa vida.

O diabo pode até matar nosso corpo, mas não pode mais matar a alma. Ela está segura em Cristo. Mesmo o nosso corpo mortal um dia será ressuscitado. "Esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita" (Rm 8.11). Somos os mais livres dentre os povos. E a Bíblia não deixa dúvidas quanto ao motivo dessa liberdade:"... vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor" (Gl 5.13).

sábado, 31 de julho de 2010

Ortodoxia Sim, Ortopraxia também.

              O termo “ortodoxia”, normalmente é empregado pelos protestantes para se referir ao sumário das doutrinas defendidas pelos Reformadores e em geral aceitas pelas Igrejas Reformadas. Ser cristão ortodoxo nos livra dos erros extremos tão visíveis no mundo contemporâneo. Todavia, não se deve esquecer que esta ortodoxia não pode ser divorciada de uma vívida ortopraxia (prática da verdade). Como seguidor de Cristo, o cristão não pode fechar os olhos para a prática que o evangelho pressupõe.

              A verdade crida e seguida deve também ser vivida e praticada. Ortodoxia bíblia e relevância sadia devem andar de mãos dadas. Estas duas verdades jamais podem ser polarizadas. O cristão não pode em razão de preservar a sua fé se esquecer de sua responsabilidade de vivê-la no mundo. O Dr. Herber Campos, diz que um dos desafios da igreja neste mundo pós-moderno é o de não se tornar um gueto. A Igreja cristã, diz ele “não deve se isolar, embora deva proteger a verdade. Ela deve aceitar o desafio de contrariar o espírito do tempo presente como uma espécie de ‘contracultura’, saindo para minar os campos alheios. Se não fizer isso, a igreja vai perder a sua verdadeira identidade”. 

              Segundo Abraham Kuyper, o pensamento reformado não deve ser visto apenas como um conjunto de dogmas teológicos que teve influência no meio eclesiático, mas que tem sido antes de tudo, uma filosofia de vida que tem afetado a sociedade e os indivíduo como um todo. Os cristãos foram postos no mundo para ser a consciência da sociedade, e não para se fecharem em si mesmos. A Igreja deve ser a voz do que clama no deserto, a fim de fazer a diferença no mundo. “O reino de Cristo é também externo”, dizia Zuínglio. Não podemos apenas zelar pela doutrina e pela fidelidade na Palavra de Deus, mas também evidenciá-las por meio de uma fé prática e viva. A ortodoxia deve necessariamente nos conduzir a otorpraxia. Por isso, não vamos divorciar estas duas verdades que devem andar juntas. 
Ortodoxia Sim, Ortopraxia também.

Sem. Jailson Santos

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Vitória Mediante Derrota – A. W. Tozer



Então disse: Já não te chamarás Jacó, e, sim, Israel: pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.
Gênesis 32:28

Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.
Gálatas 6:14

As experiências dos homens que andaram com Deus na antigüidade concordam no ensino de que o Senhor não pode abençoar plenamente um homem enquanto não o tiver vencido. O grau de bênção desfrutada por qualquer homem corresponderá exatamente à vitória mais ou menos completa de Deus sobre ele. Este é um princípio muito negligenciado do credo cristão, não compreendido por muitos nesta era segura de si, mas é, não obstante, de vital importância para todos nós. Este princípio espiritual é bem ilustrado no Livro de Gênesis.

Jacó era aquele que ardilosamente se agarrava ao calcanhar alheio, e cuja força lhe foi fraqueza quase fatal. Durante dois terços da duração total da sua vida ele tinha levado em sua natureza alguma coisa dura e não vencida. Nem a sua gloriosa visão no deserto, nem a sua longa e amarga disciplina em Harã romperam a sua força prejudicial. Permaneceu ele no vau do Jaboque por ocasião do pôr-do-sol, perspicaz, inteligente e velho mestre de psicologia aplicada aprendida a duras penas. Não foi belo o quadro representado por ele. Era um vaso estragado desde a sua fabricação. Sua esperança estava em sua derrota. Não sabia disso ao findar-se o dia, mas ao nascer do sol já o tinha aprendido. A noite inteira ele resistiu a Deus, até que amavelmente Deus tocou-lhe na articulação da coxa e obteve triunfo sobre ele. Só depois de ter descido à humilhante derrota é que ele começou a sentir a alegria da libertação da sua força má, o deleitável prazer da vitória de Deus sobre ele. Então clamou pela bênção e se negou a deixá-lo partir enquanto esta não lhe viesse. Fora uma longa luta, mas para Deus (e por razões só dEle conhecidas). Jacó fora digno do esforço. Agora ele era outro homem; o teimoso e egocêntrico rebelde tornara-se um dócil e nobre amigo de Deus. Ele prevalecera de fato, mas por meio da fraqueza, não da força.


Somente o vencido pode conhecer a verdadeira bem-aventurança. Esta é uma filosofia válida, baseada na vida, e necessária pela constituição das coisas. Não precisamos aceitar esta verdade cegamente; as razões são discerníveis, estando entre elas estas: So¬mos seres criados e, como tais, derivados, não auto-existentes. Não nos é dado ter vida em nós mesmos. Quanto à vida somos total e continuadamente dependentes de Deus, a Origem e a Fonte da vida. Somente pela total dependência dEle é que se concretizam as potencialidades ocultas da nossa natureza. Sem isto, somos apenas meios-homens, mal formados e nada belos membros de uma nobre raça outrora feita para exibir a imagem do seu Criador.

Uma vez, nos tempos antigos, Deus declarou que o fim de toda a carne chegara perante Ele, e os séculos não trouxeram nenhum abrandamento dessa sentença. "Os que estão na carne não podem agradar a Deus. ...o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. ... o pendor da carne dá para a morte." Com palavras como estas Deus perpetuou a antiga sentença de condenação. Admitamos ou não, o golpe da morte está sobre nós, e ser-nos-á salvadora sabedoria aprendermos a confiar, não em nós mesmos, mas naquele que ressuscita os mortos. Pois, como ousar pôr a nossa confiança numa coisa tão fugidia, tão efêmera como a vida humana?
Não pode achar repouso, afirmo, o homem prudente,
naquilo que perece; tampouco inclinará
seu coração para algo que do tempo depende.

Desde quatro séculos já, estas palavras chegam a nós e, em nossos momentos de queda sabedoria, sentimos e sabemos que elas são verdadeiras. Por quê, pois, colocamos a nossa confiança nas coisas que perecem e, portanto, nos tornamos as simplórias vítimas do tempo e os detestáveis vilões da mudança? Quem envenenou a nossa taça e nos transformou em rebeldes? Aquela antiga serpente, o diabo, foi quem primeiro nos seduziu para aquela temerária declaração de independência, declaração que, em vista das circunstâncias, é ao mesmo tempo tremendamente cômica e profundamente trágica. Pois o nosso inimigo só pode rir da incrível vaidade que nos levaria a medir forças com o Onipotente; essa é a comédia cínica de tudo isso; a tragédia goteja com cada lágrima e se aflige ao lado de cada túmulo.

Um pouco de familiaridade com os nossos corações nos forçará a reconhecer que não há esperança dentro de nós, e o mais breve olhar ao redor haveria de mostrar-nos que não temos por que esperar socorro de fora. A própria natureza nos ensinará que (Deus à parte) não passamos de órfãos da criação, meninos perdidos nos vastos espaços, apanhados em desamparo pela voragem de forças demasiado grandes para serem compreendidas. Por este mundo fora, ruge um invisível e imenso poder que deixa em sua esteira gerações, cidades, civilizações. A terra, nosso passageiro lar, somente nos oferece por fim um sepulcro. Nada nos resta de seguro, de amável. No Senhor há misericórdia, mas no mundo não há nenhuma, pois a natureza e a vida avançam como que inconscientes do bem e do mal, da tristeza e da dor humanas.

Foi para livrar Jacó da enganosa esperança, que Deus se con¬frontou com ele aquela noite às margens do rio. Para livrá-lo da autoconfiança foi necessário que Deus o derrotasse, que arrebatasse dele o controle, que exercesse o Seu grande poder e o dirigisse com cordas de amor. Charles Wesley, o suave cantor da Inglaterra, com penetração espiritual rara mesmo entre os cristãos adiantados, escreveu da boca de Jacó o que concebeu que seria a sua oração enquanto lutava com Deus no vau do Jaboque:

Vai-se-me a força, a minha natureza morre;
sucumbo embaixo da Tua poderosa mão;
p'ra reviver feneço, e caio para erguer-me:
Eu caio e, entretanto, pela fé estou firme.
Sim, firme estou, e não
Te deixarei partir até Teu Nome e Tua natureza saber.
Aleijado eu estou, porém capturo a presa;
pecado, inferno e terra, fácil os domino;
a saltitar de gozo, sigo o meu caminho
e para o lar eu vôo, como um ágil cervo,
para provar por toda a imensa eternidade que o
Teu'Nome é amor, e amor Tua Natureza.
Faremos bem em rogar a Deus que nos invada e nos conquiste pois, enquanto não o fizermos, ficaremos em perigo de mil inimigos. Trazemos dentro de nós as sementes da nossa própria desintegração. A nossa imprudência moral nos põe sempre em perigo de autodestruição acidental ou negligente. A força da nossa carne é um perigo para as nossas almas, perigo presente sempre. A libertação somente pode vir-nos pela derrota da nossa antiga vida. A segurança e a paz só nos podem vir depois de nos termos forçado sobre os nossos joelhos. Deus nos resgata rompendo-nos, despedaçando a nossa força e eliminando a nossa resistência. Então Ele invade a nossa natureza com aquela antiga e eterna vida que desde o princípio existe. Assim Ele nos vence e com essa benigna vitória nos salva para Si.

Com este segredo exposto aguardando fácil descobrimento, por que será que em quase todas as nossas buliçosas atividades trabalhamos noutra direção e não nesta? Por que edificamos as nossas igrejas sobre a carne humana? Por que valorizamos tanto aquilo que Deus de há muito repudiou, e desprezamos aquelas coisas que Deus tem em tão alta estima? Pois ensinamos os homens, não a morrer com Cristo, mas a viver na força da sua humanidade agonizante. Jactamo-nos, não em nossa fraqueza, mas em nossa força. Valores que Cristo declarou falsos são trazidos de volta para debaixo do favor evangélico e promovidos como sendo a própria vida e substância do caminho cristão. Com que avidez buscamos a aprovação deste ou daquele homem de reputação secular. Quão vergonhosamente exploramos a celebridade convertida. Qualquer pessoa afastará a censura de obscuridade dos nossos líderes famintos de publicidade: atletas famosos, membros do congresso, viajantes internacionais, ricos industriais; diante deles nos inclinamos com obsequiosos sorrisos e os honramos em nossas reuniões públicas e em nossa imprensa religiosa. Assim glorificamos homens para realçar a posição da igreja de Deus, e a glória do Príncipe da Vida é deixada a depender da transitória fama de um homem que sem falta morrerá.

É espantoso que nos proclamemos seguidores de Cristo e, contudo, tomemos tão superficialmente as palavras dos Seus servos. Pois como poderíamos agir como agimos, se levássemos a sério a admoestação de Tiago, o servo de Deus: "Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajes de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajes de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé, ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prome¬teu aos que o amam?"

Paulo via estas coisas sob outra luz, que não a daqueles homens a quem Tiago faz a sua reclamação. "Pela cruz", diz ele, "estou crucificado para o mundo". A cruz em que Jesus morreu veio a ser também a cruz em que o Seu apóstolo morreu. A perda, a rejeição, a vergonha, pertencem tanto a Cristo como a todos os que real e verdadeiramente são de Cristo. A cruz que os salva também os mata, e qualquer coisa abaixo disso é uma pseudo fé, não uma fé verdadeira, de modo nenhum. Mas o que havemos de dizer quando a grande maioria dos nossos líderes conservadores não andam como crucificados, mas como os que aceitam o mundo com o seu próprio valor — rejeitando apenas os seus elementos mais gros¬seiros? Como podemos encarar Aquele que foi crucificado e morto, quando vemos os Seus seguidores aceitos e louvados? Todavia, eles pregam a cruz e protestam em alta voz que são crentes verdadeiros. Haverá, então, duas cruzes? E será que Paulo quis dizer uma coisa e eles outra? Temo que é assim, que existem duas cruzes, a antiga e a nova.

Lembrando-me das minhas próprias imperfeições, quero pensar e falar com amor cristão de todos aqueles que levam sobre si o precioso Nome pelo qual nós cristãos somos chamados. Mas, se enxergo bem, a cruz do evangelismo popular não é a cruz do Novo Testamento. É, ao contrário, um novo e brilhante ornamento do seio de um cristianismo autoconfiante e carnal cujas mãos são, de fato, as mãos de Abel, mas cuja voz é de Caim. A antiga cruz matava os homens; a nova os entretém. A antiga cruz os condenava; a nova os diverte. A antiga cruz destruía a confiança na carne; a nova a estimula. A antiga cruz produzia lágrimas e sangue; a nova produz riso. A carne, sorridente e confiante, prega e canta acerca da cruz; diante dessa cruz ela se inclina e para essa cruz aponta com esmerado e teatral dramatismo — mas nessa cruz a carne não morrerá, e o opróbrio dessa cruz, obstinadamente, se nega a levar sobre si.

Bem sei quantos argumentos lisonjeiros podem ser manipulados em apoio da nova cruz. Não é verdade que a nova cruz ganha conversos e faz muitos seguidores e. assim, leva a vantagem do sucesso numérico? Não devemos ajustar-nos aos tempos que mudam? Não ouvimos o lema, "Novos dias, novos métodos"? E quem, exceto alguém muito velho e muito conservador, insistiria na morte como o meio indicado para a vida? E quem hoje está interessado num melancólico misticismo que sentenciaria sua carne a uma cruz e recomendaria a humildade que apaga o ego, como uma virtude que os cristãos modernos devem praticar realmente? Estes são os argumentos que, ao lado de muitos outros mais verbosos ainda, são apresentados para dar uma aparência de sabedoria à cruz oca e sem sentido do cristianismo popular.

Sem dúvida há muitos cujos olhos estão abertos para a tragédia do nosso tempo, mas, por que ficam eles tão silenciosos quando há tão dolorosa necessidade do seu testemunho? Em nome de Cristo os homens têm esvaziado a cruz de Cristo. "Alarido dos que cantam é o que ouço." Os homens modelaram com buril uma cruz de ouro e diante dela se assentam para comer e beber e se levantam para divertir-se. Em sua cegueira, substituíram a ação do poder de Deus pela obra de suas humanas mãos. Talvez a nossa maior necessidade atual seja a vinda de um profeta que quebre as pedras aos pés do monte e convoque a igreja para o arrependimento ou o juízo.

Diante de todos os que desejam seguir Cristo, o caminho é claro. É o caminho da morte para a vida. Sempre a vida está logo além da morte e acena para o homem que está farto de si mesmo para que venha e conheça a vida mais abundante. Mas para alcançar a nova vida ele deve passar pelo vale da sombra da morte, e eu sei que ao som destas palavras muitos darão as costas e não mais seguirão a Cristo. Para quem iremos, porém? "Tu tens as palavras da vida eterna."

"Pode ser que haja alguns seguidores bem intencionados que voltem atrás porque não aceitam a morbidez que parece associar-se à idéia da cruz. São amantes do sol e acham duro demais pensar em viver somente nas sombras. Não querem habitar com a morte nem viver sempre numa atmosfera de morte. E o instinto deles não falha. A igreja tem exagerado muitíssimo nas cenas dos leitos de morte, nos cemitérios paroquiais e nos funerais. O cheiro bolorento das igrejas, o lento e solene passo do ministro, o sopitado silêncio dos adoradores e o fato de que muitos entram num templo somente para prestar sua última homenagem aos mortos, tudo fortalece a noção de que a religião é algo que deve ser temido e que, como uma operação grave, deve ser suportado só porque fomos apanhados numa crise e não ousamos evitá-lo. Nada disso é a religião da cruz; é, ao contrário, uma paródia dela. O cristianismo de cemitério paroquial, conquanto nem remotamente relacionado com a doutrina da cruz, talvez possa ser culpado do aparecimento da nova e alegre cruz de hoje em dia. Os homens anelam a vida, mas quando se lhes diz que a vida vem pela cruz, não podem entender como pode ser isso, pois aprenderam a associar com a cruz imagens típicas como placas memoriais, naves com pouca iluminação, e hera. Assim, re¬jeitam a verdadeira mensagem da cruz e com essa mensagem rejei¬tam a única esperança de vida conhecida dos filhos dos homens.

A verdade é que Deus nunca planejou que os Seus filhos vivessem para sempre estendidos numa cruz. Cristo mesmo suportou a Sua cruz durante apenas seis horas. Quando a cruz acabou de realizar a sua obra, a vida entrou e dominou. "Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome." A Sua jubilosa ressurreição veio logo em seguida à Sua triste crucifixão. Mas o primeiro tinha que vir antes do segundo. A vida que pára aquém da cruz é apenas algo fugidio e condenado, destinado a perder-se a ponto de não poder recuperar-se. A vida que vai até à cruz e ali se perde para então ressurgir com Cristo é um tesouro divino e imperecível. Sobre ela a morte não mais tem domínio. Todo aquele que se recusa a levar sua antiga vida à cruz está apenas tentando enganar a morte e, não importa quão ardua¬mente lute contra ela, não obstante está fadado a perder sua vida afinal. O homem que toma a sua cruz e segue a Cristo, logo verá que a sua direção é para longe do sepulcro. A morte está por trás dele, e uma jubilosa e crescente vida está adiante. Os seus dias serão assinalados daí por diante, não pela obscuridade eclesiástica, pelo cemitério de igreja, pela entonação afetada, pela vestimenta negra (coisas que não passam de mortalhas de uma igreja morta), mas pela "alegria indizível e cheia de glória".

A fé real sempre deve significar mais que aceitação passiva. Atreve-se a significar nada menos que a sujeição da nossa condenada vida adâmica a um misericordioso fim na cruz. Isto é, recebemos a justa sentença de Deus contra a nossa carne má e admitimos o Seu direito de dar fim à sua carreira insossa. Consideramo-nos como crucificados com Cristo e como ressuscitados para uma novidade de vida. Onde houver tal fé, Deus sempre agirá de acordo com o que esperamos. Aí começa a divina conquista das nossas vidas. Deus realiza isto por meio de uma efetiva captura, uma invasão das nossas naturezas, contundente mas impulsionada pelo amor. Quando Ele domina a nossa resistência, prende-nos com cordas de amor e nos atrai a Si. Ali, "desvanecidos com a Sua amabilidade", jazemos vencidos e damos graças e mais graças a Deus pela bendita conquista. Ali, com a sanidade moral restabelecida, levantamos os olhos e bendizemos o Deus Altíssimo. Então partimos, pela fé, para cativar aquilo para que fomos primeiro cativados por Deus.
"Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos peque¬ninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado."