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domingo, 4 de julho de 2010

Agostinho de Hipona: "Que tens tu que não tenhas recebido?"(354 - 430)



- A luta pessoal de Agostinho em direção à fé cristã reflete os conflitos espirituais de muitos cristãos modernos: como o pecado tem afetado a personalidade humana? Se Deus é infinitamente poderoso e amoroso, por que o mundo está cheio de tanto mal e sofrimento? O que é exatamente o mal? Como o mal entrou na Criação de Deus? Por que somos tão reticentes em fazer o bem? Por que nos encontramos amando as coisas erradas com tanta freqüência? Como podemos aprender a amar o bem? Como o pecado tem afetado nossa capacidade de amar o que é certo e odiar o que é errado?

Em peregrinação

Aurelius Augustinus, mais conhecido como Agostinho, nasceu em Tagaste, na Numídia (hoje Souk-Ahras, na Argélia), província romana ao norte da África, em 13 de novembro de 354. Ele foi o primogênito de Patrício, conselheiro municipal e membro da classe média, que permaneceu pagão até as vésperas de sua morte, e da cristã Mônica, a quem Agostinho atribuiu grande crédito, por suas constantes orações em seu favor. O irmão de Agostinho, Navígio, morreu jovem, e a irmã, Perpétua, foi membro dos primeiros mosteiros.

Em 365, com 11 anos, foi enviado para estudar em Madaura. Em 370, voltou a Tagaste, e, aos 17 anos, transferiu-se para Cartago, para estudar retórica e artes liberais. Seu pai morreu no ano seguinte. Agostinho conheceu uma mulher, com quem se uniu nesse mesmo ano; ela se tornaria sua companheira durante quinze anos — ele a abandonou depois e nunca mencionou seu nome. Em 373, tornou-se maniqueu, sendo esse, provavelmente, o ano do nascimento de seu filho, Adeodato, falecido em 390. Em 374 regressou a Tagaste como professor de gramática e, em 383, foi para Roma, onde continuou a lecionar. Dois anos depois, ganhou a cátedra de retórica da Casa Imperial e foi para Milão, onde conheceu Ambrósio, bispo da cidade. Nessa época, Agostinho já havia abandonado o maniqueísmo e começou a receber influência do neoplatonismo. O neoplatonismo de então era visto como uma filosofia que, com ligeiros retoques, parecia capaz de auxiliar a fé cristã a tomar consciência de sua própria estrutura interna e defender-se com argumentos racionais, elabo-rando-se como teologia.

Por causa do exemplo dos monges e da sua própria formação neoplatônica, Agostinho estava convicto de que teria de renunciar à sua carreira de professor de retórica e a todas as ambições e alegrias dos prazeres sensuais, caso se tornasse um cristão. Este último ponto era a principal dificuldade que ainda o detinha. Ele mesmo conta sua constante oração: Dá-me o dom da castidade, mas ainda não.

Estava ainda fortemente preso à mulher. O apóstolo Paulo não me proibia o matrimônio, se bem me exortasse sobremaneira a escolher um estado mais alto, quando sugeria que, se possível, todos os homens vivessem como ele. Mas eu, ainda bastante fraco, ptocurava uma condição mais cômoda. Era esse, em tudo, o único motivo de minhas hesitações, enfraquecido que estava por preocupações enervantes, pois, devendo entregar-me ávida conjugai, via-me sujeito a outras obrigações que não queria suportar.

Sendo assim, recrudesceu nele a batalha entre o querer e o não querer. Ele queria tornar-se cristão. Mas ainda não. Sabia que não podia mais interpor dificuldades de ordem intelectual, o que fazia a luta consigo mesmo ser ainda mais intensa. De todos os lados vinham notícias de outras pessoas que tinham feito o que ele não arriscava fazer, e ele sentia inveja.

Certo dia, em agosto de 386, Agostinho sentou-se no jardim de uma casa que alugava com alguns amigos. Ele lia com seu amigo Alípio um pergaminho da epístola de Paulo aos Romanos, e conversava sobre o evangelho pregado e ensinado pelo apóstolo. Nesse momento, não podendo tolerar a companhia de seus amigos, e tampouco a sua, ele fugiu para o outro lado do jardim, onde se encontrou em terrível agonia de espírito.

Deixei-me, não sei como, cair debaixo de uma figueira e dei livre curso às lágrimas, que jorravam de meus olhos aos borbotões, como sacrifício agradável a ti. E muitas coisas eu te disse, não exatamente nestes termos, mas com o seguinte sentido: "E tu, Senhor, até quando? Até quando continuarás irritado? Não te lembres de nossas culpas passadas". Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava desesperadamente: "Por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? Por que não pôr fim agora à minha indignidade?".

Toma e lê. Toma e lê — Tolle, lege. Essas palavras, que alguma criança gritava em seus jogos infantis, flutuaram sobre o jardim e foram chegar aos ouvidos de Agostinho, que sofria profundamente debaixo da figueira. As palavras que a criança gritava pareciam ser um sinal do céu. Pouco antes, Agostinho jogara fora, em outro lugar do jardim, o manuscrito que estivera lendo. Agora voltou para lá, tomou-o e leu as seguintes palavras do apóstolo: "Não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja. Ao contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne" (Rm 13.13,14).


Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetrasse em meu coração uma luz de certeza. Marcando a passagem com o dedo ou com outro sinal qualquer, fechei o livro e, de semblante já tranqüilo, o mostrei a Alípio.

Em resposta às palavras do apóstolo Paulo, Agostinho encontrou o que estivera procurando por muito tempo. Dedicou-se totalmente à vida cristã, deixou sua ocupação de professor e abraçou a vida monástica ao converter sua casa em mosteiro para oração, estudo e reflexão.

De monge a bispo

No ano seguinte, com 33 anos, na noite da Páscoa, de 24 para 25 de abril, foi batizado por Ambrósio, juntamente com o filho Adeodato e com seu amigo Alípio. Após esses eventos, sua piedosa mãe, Mônica, faleceu em Ostia Tiberina, porto de Roma. Agostinho voltou para a África, indo de novo para Tagaste, onde vendeu suas posses e se dedicou ao ideal da vida monástica: estudo, pobre-za, trabalho e meditação.

Pouco depois, mudou-se para Hipona — que ficava próxima da atual Annaba, na Argélia —, "para procurar um lugar onde fundar um mosteiro e viver com seus irmãos". Em 391, foi praticamente obrigado a ser ordenado presbítero. Conforme os planos, fundou um mosteiro e nele viveu, presbítero e monge, no ascetismo e no estudo "segundo a maneira e a regra estabelecida no tempo dos apóstolos".

Quatro anos mais tarde, também contra sua vontade, Agostinho foi eleito bispo auxiliar. O bispo Valério propôs à assembléia designar um ministro com possibilidades de auxiliá-lo, principalmente na pregação. A presença de Agostinho não passara despercebida. Houve um só grito: "Agostinho, bispo". O candidato protestou e chorou. Não adiantou nada: a ordenação estava decidida.

Em 396, aos 42 anos, sucedeu ao bispo Valério, em Hipona. O mosteiro que ele fundou acabou por se tornar um seminário de ministros e bispos para toda a África.

O triunfo da graça

Em seu primeiro grande debate teológico, Agostinho se ocupou dos maniqueus, uma seita dualista que cria que o universo físico se originou das trevas, enquanto a alma humana era produto da luz. Contra essa seita, ele defendeu a dignidade da igreja e seu direito exclusivo de se chamar Igreja de Cristo.

Os maniqueus achavam que poderiam remontar suas crenças ao próprio Jesus Cristo, ao passo que a verdadeira igreja, por meio dos apóstolos, recebe de Jesus sua autoridade, a qual constitui a base da fé cristã.

Agostinho defendeu o Antigo Testamento como preparação do Novo Testamento, que está em harmonia e continuidade com aquele. A Criação é uma obra boa e positiva. O mal é a corrupção do bem e o resultado do livre pecado do homem. Ele denunciou, de forma especial, a dualidade metafísica do maniqueísmo, com seu panteísmo e materialismo.

No trabalho pastoral, Agostinho se viu diretamente confrontado com o donatismo. Esse cisma, cujo nome vem de Donato, bispo de Cartago, surgiu durante a perseguição dos imperadores Décio e Diocleciano. Os donatistas recusaram a ordenação de um bispo suspeito de ter entregue as Escrituras por ocasião de uma perseguição. Eles se percebiam como uma igreja de puros, julgando com severidade os cristãos que acolhiam com indulgência demasiada os convertidos e os fracos, que se desentenderam com o poder romano. Chegaram a rejeitar a validade dos sacramentos administrados por essas pessoas. Mas, para Agostinho, os donatistas eram culpados do pecado de cisma, ao se apartarem da igreja.

Foi por ocasião desse conflito que Agostinho elaborou sua teologia dos sacramentos e da igreja. Ele sustentou firmemente que a graça sacramental age por si mesma, ex opere operado (em virtude do próprio ato), sendo irrelevantes as condições espirituais do ministro. Em seu entendimento, os sacramentos continuam válidos porque é Cristo quem os oferece. Ele elaborou, sobretudo, a doutrina da igreja. A igreja é o corpo de Cristo unificado pelo amor no Espírito. Aqueles que dela se afastam possuem em vão a fé, os sacramentos e mesmo virtudes. Assim, ele foi levado a afirmar uma igreja invisível conhecida apenas por Deus — os eleitos, os verdadeiros cristãos — dentro da igreja visível, que era a igreja na terra. Enquanto esperamos a vinda do Senhor, santos e pecadores estão misturados. Somente Deus conhece seus eleitos. Essa diferenciação entre a igreja visível e a igreja invisível foi enfatizada, mais tarde, por João Calvino e outros teólogos protestantes.

Pela primeira vez na história da igreja, surge a controvérsia sobre as doutrinas da graça. Pelágio, nascido na Grã-Bretanha, famoso por sua disciplina moral, começou a defender o argumento de a vida cristã consistir em um esforço permanente, através da qual a pessoa vence seus pecados e obtém a salvação. O diácono Paulino de Milão acusou o principal discípulo de Pelágio, Celestius, de seis heresias: (1) Adão foi criado mortal e teria morrido, quer tivesse pecado quer não; (2) o pecado de Adão contaminou só a ele e não a raça humana; (3) as crianças recém-nascidas estão naquele estado em que estava Adão antes da queda; (4) a raça humana inteira nem morre por causa da morte de Adão nem ressuscita pela ressurreição de Cristo; (5) a Lei, tanto quanto o Evangelho, conduz ao Reino dos céus; (6) mesmo antes da vinda do Senhor houvera homens sem pecado. Para Pelágio, não haveria a necessidade de alguma graça especial de Deus, pois ela era algo que estaria presente em todos os lugares, em todo momento.

Agostinho se opôs a Pelágio. Para isso, ele se lembrou de como foi difícil sua conversão, em como orava: "Até quando, Senhor, até quando? Amanhã, sempre amanhã? Por que não acaba com minha imundície neste exato momento?". Sua resposta foi abrangente.

1.      A partir da queda de Adão, a humanidade se tornou totalmente depravada, ou seja, todas as esferas de nossa humanidade — razão, vontade e afetos — tornaram-se escravas do pecado. Como herança maldita, recebida de Adão, a natureza humana passou a ser escrava do pecado e sujeita à morte. Como conseqüência, a vontade humana nem sempre é dona de si mesma.

Porque estávamos todos naquele homem, desde que todos nós éramos aquele homem, que caiu em pecado através da mulher que foi feita para ele antes do pecado. Porque ainda não havia a forma particular criada e distribuída a nós na qual, como indivíduos, deveríamos viver, mas a natureza germinal, da qual deveríamos ser propagados, estava lá; e isso tendo sido corrompido pelo pecado e amarrado pela cadeia da morte, justamente condenado, o homem não poderia nascer de outro homem em qualquer outro estado. E assim, do mau uso do livre-arbítrio, orignou-se toda a série de males, da qual, com o seu encadeamento de misérias, escolta a raça humana da sua origem depravada, como de uma raiz corrupta, para a destruição da segunda morte, a que não tem fim, exceção feita para aqueles que são libertos pela graça de Deus.

Conseqüentemente, o ser humano é incapaz de conseguir a própria salvação sem o socorro da graça especial.

2.      Como decorrência, apenas somos salvos por causa da eleição livre e incondicional de Deus. Em sua maravilhosa graça, Deus escolhe pecadores, na eternidade, não por mera previsão de fé ou obras, mas por sua graça e para sua glória. "Deixe-nos, então, entender o chamado por meio do qual eles se tornaram eleitos — não aqueles que são eleitos porque creram, mas que são eleitos para que possam crer". A prioridade da graça livre e soberana de Deus na salvação de pecadores foi afirmada claramente por Agostinho, porque ele entendeu que só sendo livre e soberana a graça pode ser, de fato, imerecida.


3.      Então, a graça age de forma irresistível nos eleitos: o Espírito convence de maneira eficaz os pecadores, atraindo-os irresistivelmente a Cristo, cativando-os com sua beleza e formosura.
Quão doce foi para mim estar liberto subitamente destes prazeres infrutíferos os quais um dia temia perder! Tu os afastaste de mim, tu que és a alegria soberana e verdadeira. Tu os afastaste para longe de mim e tomaste seu lugar, tu que és mais doce que qualquer prazer, embora não o seja para carne e sangue, tu que excedes em brilho toda luz, não obstante mais oculto que qualquer segredo nos nossos corações, tu que sobrepujas toda honra, embora não aos olhos dos que se exaltam a si mesmos... Ó Senhor, meu Deus, minha Luz, minha Riqueza, e minha Salvação.
Agostinho entendeu que até mesmo a fé é um dom de Deus, obra da sua graça imerecida.

4.      Esses pecadores, eleitos e graciosamente atraídos a Cristo, perseverarão. Mais ainda, Deus mesmo persevera sobre eles, para conduzi-los à glorificação.

No caso dos santos predestinados ao Reino de Deus pela graça divina, a ajuda concedida para que perseverassem não foi aquela dada a Adão, mas uma ajuda especial, comportando forçosamente a perseverança de fato, sendo de tal maneira forte e eficaz que os santos não podiam fazer outra coisa senão perseverar de fato.

A salvação, do começo ao fim, é obra da graça de Deus para sua glória. A diferença entre Pelágio e Agostinho prendia-se às considerações que faziam sobre a natureza humana e a graça de Deus. As idéias de Pelágio foram refutadas por Agostinho numa série de tratados que se tornaram conhecidos como tratados antipelagianos.

O pelagianismo foi condenado como heresia pelo bispo de Roma em 417 e 418, e pelos concílios de Cartago, em 418, de Éfeso, em 431 (o terceiro grande concilio eclesiástico), e finalmente pelo de Orange, em 529.

R. C. Sproul está correto ao dizer que "precisamos de um Agostinho ou um Lutero para nos falar novamente; caso contrário, a luz da graça de Deus será não apenas ofuscada, mas extinta por completo na nossa época".

O fim de uma era

Em 430, Genserico atacou a Numídia e cercou Hipona. Agostinho quis morrer sozinho. Em seu leito de morte, ele pediu que as cópias dos salmos penitenciais fossem fixadas nas paredes de seu quarto. Durante a doença, os lia, chorando muito e constantemente. No terceiro mês do cerco, em 28 de agosto de 430, Agostinho morreu, aos 76 anos de vida.

A imensa luta teológica de Agostinho é o exemplo supremo do princípio de que a fé deve buscar a compreensão. Em toda a sua obra teológica, elaborada em clima de oração, estão unidas sabedoria e erudição. Sua capacidade intelectual nos legou algumas obras-primas: Confissões, A Trindade, A doutrina cristã e A cidade de Deus. E não só isso. Sua produção é tão vasta, que falar dela é como que-rer discorrer sobre uma biblioteca, composta de diálogos, comentários, cartas, sermões, tratados sobre diversos temas teológicos, filosóficos, dogmáticos, morais, espirituais, pastorais e históricos.

Agostinho foi o mestre por excelência de uma nova época. E essa influência pode ser encontrada nos grandes escritores cristãos da Idade Média. Os reformadores do século 16, Martinho Lutero e João Calvino, foram profundamente influenciados pelo bispo de Hipona, assim como Jonathan Edwards, o grande teólogo do século 18. Como Colin Brown diz:

Freqüentemente tem sido dito que tanto o catolicismo quanto o protestantismo têm sua origem em Agostinho. O primeiro obtém dele (mas não exclusivamente dele) seu alto conceito da igreja e dos sacramentos. O último segue Agostinho na sua visão da soberania de Deus, da perdição do homem no pecado e da graça de Deus que é o meio exclusivo para trazer a salvação ao homem. Assim como ocorre a todos os ditados

fáceis, esta declaração acerca de Agostinho simplifica demais. Há, certamente, católicos hoje que compartilham do ponto de vista de Agostinho acerca da salvação e protestantes que não compartilham dele. Seja como for, porém, foi de Agostinho mais do que qualquer outro teólogo indivi-dualmente que o pensamento medieval recebeu seu arcabouço teológico de idéias. Mesmo quando pensadores posteriores alteraram a pintura dentto do quadro, o arcabouço com que começaram foi a teologia da igreja primitiva em geral e a de Agostinho em particular.
Portanto, nenhum dos que o antecederam foi tão notável quanto ele, que realizou seu ministério numa pequena cidade do norte da África, mas cuja influência se fez sentir em todo o cristianismo ocidental.

Obras de referência:

AGOSTINHO. A doutrina cristã. São Paulo: Paulus, 2002.
         A graça, I e II. V. I: O espírito e a letra, A natureza e a graça,
A graça de Cristo e o pecado original; v. II: A graça e a liberdade, A correção e a graça, A predestinação dos santos, O dom da perseverança. São Paulo: Paulus, 1998.
         A Trindade. São Paulo: Paulus, 1995.
         A verdadeira religião & O cuidado devido aos mortos. São Pau-
lo: Paulus, 2002.
         Comentário ao Gênesis. São Paulo: Paulus, 2005.
         Comentário aos Salmos. São Paulo: Paulus, 1997, 3 v.
         Confissões. São Paulo: Paulus, 1997.
         Dos bens do matrimônio. São Paulo: Paulus, 2000.
         O livre-arbítrio. São Paulo: Paulus, 1995.
         Solilóquios & A vida feliz. São Paulo: Paulus, 1998.
BETTENSON, H. (ed.). Documentos da igreja cristã. São Paulo: Aste, 1998, p. 102-17, 139-40.



Franklin Ferreira

terça-feira, 18 de maio de 2010

Santidade - Objetivo todo-abrangente na vida de John Owen




O que gostaria de fazer agora é tentar me aproximar do cerne daquilo que fez este homem notável e daquilo que o fez grande. Acredito que o Senhor quer que sejamos inspirados por este homem de uma profunda forma pessoal e espiritual. Parece que esta é a forma que ele tocou tanto as pessoas – como J.I. Packer e Sinclair Ferguson.

Acredito que as palavras dele que nos trazem mais próximos do coração e do objetivo de sua vida são encontradas no prefácio do pequeno livro A Mortificação do Pecado nos Crentes, que foi baseado nos sermões pregados aos estudantes e à comunidade acadêmica em Oxford: Espero que eu possa possuir em sinceridade que o meu desejo de coração para com Deus, e o principal desígnio de minha vida.... é, que a mortificação e a santidade universal possam ser promovidas no meu e nos corações e caminhos dos outros, para a glória de Deus, a fim de que o Evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo possa ser adornado em todas as coisas.

Isto foi em 1656. Owen tinha 40 anos de idade. Vinte e cinco anos depois ele ainda estava tocando a mesma nota em suas pregações e escritos. Em 1681, ele publicou The Grace and Duty of Being Spiritually Minded [A Graça e o Dever de Ser Espiritualmente Orientado].Sinclair Ferguson está provavelmente correto quando diz “Tudo que ele escreveu a seus contemporâneos têm um objetivo prático e pastoral em vista – a promoção da verdadeira vida cristã”– em outras palavras, a mortificação do pecado e o avanço da santidade.

Este foi seu encargo não somente para as igrejas, mas também para a Universidade, quando estava lá. Peter Toon diz: “A ênfase especial de Owen era insistir que o inteiro currículo acadêmico deveria ser imerso em pregação, catecismo e oração. Ele queria que os graduados de Oxford não somente fossem proficientes em Artes e Ciências, mas que também aspirassem à piedade”.

Mesmo em suas mensagens políticas – os sermões ao Parlamento – o tema era repetidamente santidade. Ele baseou isto na linha de pensamento do Antigo Testamento – que “o povo de Israel estava nas melhores condições quando seus líderes eram piedosos”.

Portanto, o ponto principal dele era que o legislativo deveria ser composto por pessoas santas. Sua preocupação de que o Evangelho se espalhasse e fosse adornado com santidade não era apenas um encargo para sua terra natal, a Inglaterra. Quando ele voltou para a Irlanda em 1650, onde viu as forças inglesas, sob as ordens de Cromwell, dizimar a Irlanda, ele pregou no Parlamento e clamou por outro tipo de guerra:

“Como Jesus Cristo pode estar na Irlanda apenas como um leão que mancha suas vestes com o sangue dos seus inimigos; e ninguém o sustenta como um Cordeiro que derramou Seu próprio sangue por seus amigos?... Isto é lidar corretamente com o Senhor Jesus? – chamá-lo para a batalha e tirar-lhe a coroa? Deus foi fiel convosco ao fazer grandes coisas por vocês; sejam fiéis nisto – dêem o seu máximo pela pregação do Evangelho na Irlanda”.

De seus próprios escritos, e do testemunho de outros, parece justo dizer que o objetivo da santidade pessoal em toda a vida, e a mortificação de todo pecado conhecido, foi o trabalho não somente de seus ensinamentos, mas de sua própria vida pessoal também. David Clarkson, seu associado pastoral nos anos finais do ministério de Owen, dirigiu o seu funeral. Nele, ele disse: Uma grande luz se apagou; uma de eminência pela santidade, conhecimento, qualidades e habilidades; um pastor, um erudito, um santo de primeira magnitude; a santidade deu um resplender divino às suas outras realizações, ela brilhou em todo o seu curso, e foi difundida através de toda a sua conversação.

John Stoughton disse que “Sua piedade igualou-se a sua erudição” Thomans Chalmers da Escócia comenta em On Nature, Power, Deceit, and Prevalence of Indwelling Sin in Believers [Sobre a Natureza, Poder, Engano e Prevalência do Pecado Interior nos Crentes]: 

“É mais importante ser instruído neste assunto por alguém que alcançou tais patamares em santidade, e cujo conhecimento profundo e experimental da vida espiritual o capacitou tão bem a detalhar sua natureza e operações.”
  
Por que devemos ouvir John Owen A razão pela qual esta questão é tão urgente para nós hoje, não é somente que há uma santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (Hebreus 12.14), mas que parece existir uma falta de líderes políticos e eclesiásticos hoje que façam da busca pela santidade algo tão central como a busca pelo crescimento da igreja ou pelo sucesso político. O Presidente dos Estados Unidos comunicou mui claramente que não acredita que sua santidade pessoal seja um fator significante em sua liderança desta nação3. A maneira desdenhosa com que muitas igrejas tratam um comportamento sexual decente é um eco da mesma doença. John Owen deveria ser aplicado tanto no cenário nacional quanto no eclesiástico.

John Owen é um bom conselheiro e modelo para nós neste assunto de santidade porque ele não era um eremita. Freqüentemente pensamos que algumas pessoas têm o prazer monástico de simplesmente saírem da confusão da vida pública e tornarem-se pessoas santos. Não eram assim que os Puritanos da época de Owen agiam. J.I. Packer diz que o Puritanismo foi “um monasticismo reformado, fora do claustro e longe dos votos monásticos”. Isto é especialmente verdadeiro de Owen.

Seu contemporâneo, Richard Baxter, chamou Owen de “o grande obreiro.” Ele vivia exposto ao público. Ele estava envolvido na administração acadêmica; tinha a política sempre aos seus ouvidos; se envolveu com os oficiais da liderança militar do país; estava envolvido em controvérsias sobre todos os tipos de assuntos, desde a autenticidade dos sinais vocálicos do hebraico e a Epístola de Inácio às leis nacionais de tolerância e a natureza da justificação; participou de centenas de ministérios congregacionais independentes, como seu porta-voz à nível nacional; ele fez tudo isto enquanto pastoreava as pessoas – e não se esqueça, perdendo um filho a cada três anos.

E todos nós sabemos que uma vida como esta é uma luta contra o criticismo, que pode quebrar o próprio espírito e fazer a busca pela santidade pessoal duplamente difícil. Quando seus adversários não podiam superá-lo em argumentação, eles apelavam para o assassinato do caráter. Ele foi chamado de “o grande líder da perturbação e sedição...uma pessoa que competia com Maomé, por sua agressividade e impostura... uma víbora, tão cheia de peçonha que deve logo morder ou derramar seu veneno.” E ainda mais doloroso e desanimador é o criticismo de amigos.

Certa vez, ele recebeu uma carta de John Eliot, o missionário aos índios na América, que o machucou, ele disse, mais que qualquer um de seus adversários: O que recebi de você... me marcou profundamente e deixou uma impressão bem maior em minha mente, mais do que todas as calúnias virulentas e falsas acusações que já recebi de meus adversários professos...Que eu deveria agora ser acusado para causar uma ferida para santidade nas igrejas, é um dos mais tristes franzimentos na fronte turva da Providência Divina.

Adicione a isto às dificuldades diárias de viver em um mundo pré-tecnológico, sem qualquer conveniência moderna, atravessando duas grandes pragas, uma das quais matou 70.000 do meio milhão de habitantes de Londres em 1665, mais os 20 anos vivendo fora da proteção da lei – assim, sabemos que a santidade de John Owen não funcionou apenas em momentos de conforto, prazer e segurança. Quando um homem como este, dadas estas circunstâncias, é lembrado e exaltado por séculos devido à sua santidade pessoal, deveríamos escutá-lo.  

John Piper

John Owen - Fecundidade em meio a Pressão -


Se desejar leia o primeiro artigo - John Owen - Um Primeiro Olhar

O que começou a me impressionar, à medida que aprendia quão pública e quão administrativamente carregada era a vida de Owen, foi que ele era capaz de continuar estudando e escrevendo, a despeito de tudo, e em parte por causa de tudo.

Em Oxford, Owen era responsável pelos serviços de adoração, pois a Igreja de Cristo era uma catedral, bem como uma faculdade, e ele era o pregador. Ele era responsável pela escolha de estudantes, a nomeação de capelães, a provisão de facilidades tutoriais, a administração de disciplina, a supervisão da propriedade, a cobrança de aluguéis e dízimos, a doação de possessões e o cuidado dos carentes no hospital da igreja, mas o seu objetivo principal, em toda a sua vida, diz Peter Toon, era “estabelecer a vida inteira da Faculdade sobre a Palavra de Deus”.

Sua vida era simplesmente sobrepujada pela pressão. Eu não posso imaginar que tipo de vida familiar ele tinha, e durante o tempo em que suas crianças estavam morrendo (sabemos que pelo menos dois filhos morreram na praga de 1655). Quando ele terminou seus deveres como Vice-Chanceler, ele disse na conclusão do seu discurso, Os labores têm sido inumeráveis; além de submeterem a enormes gastos, frequentemente quando trazido à beira da morte por sua causa, tenho odiado estes membros e este corpo débil com o qual estava pronto a abandonar minha mente; as censuras dos plebeus têm sido indiferentes; a inveja dos outros tem sido sobrepujada: nestas circunstâncias eu desejo a vocês toda prosperidade e dou adeus.

A despeito de toda esta pressão administrativa, e até mesmo hostilidade, por causa de seu compromisso com a piedade e com a causa Puritana, ele estava constantemente estudando e escrevendo, provavelmente até tarde da noite, em vez de dormir. Isto mostra quão preocupado ele era com a fidelidade doutrinária às Escrituras. Peter Toon lista 22 obras publicadas durantes estes anos. Por exemplo, ele publicou sua defesa da Perseverança dos Santos em 1654. Ele viu um homem chamado John Goodwin espalhando erro sobre esta doutrina e sentiu-se constrangido, mesmo com todos os seus outros deveres, a respondê-lo – com 666 páginas! Este livro preenche todo o volume 11 em suas Works. E ele não escrevia felpas que desapareciam durante a noite. Um biógrafo dele disse que este livro é “a vindicação mais magistral da perseverança dos santos na língua inglesa”.

Durante estes anos administrativos ele escreveu também Of the Mortification of Sin in Believers [Sobre a Mortificação do Pecado nos Crentes] (1656), Of Communion with God[Sobre a Comunhão com Deus] (1657), Of Temptation: The Nature and Power of It [Sobre a tentação: A Natureza e o Poder dela] (1658). O que é impressionante sobre estes livros é que eles são o que poderia ser chamado de intensamente pessoais e em muitos lugares muito suaves. Assim, ele não estava apenas lutando batalhas doutrinárias; ele estava lutando contra o pecado e a tentação. E ele não estava apenas lutando, ele estava tentando encorajar uma profunda comunhão com Deus em seus estudantes.

Ele foi aliviado dos seus deveres de Deão em 1660 (tendo renunciado a Vice-Chancelaria em 1657). Cromwell tinha morrido em 1658. A monarquia com Charles II estava de volta. O Ato da Uniformidade, que removeu 2.000 Puritanos dos seus púlpitos, estava às portas (1662). Os dias seguintes para Owen, agora, não seriam os grandes dias políticos e acadêmicos dos últimos 14 anos. Ele era agora, de 1660 até sua morte em 1693, um tipo de pastor fugitivo em Londres.

Durante estes anos ele se tornou o que alguns têm chamado de o “Atlas e o Patriarca da Independência”. Ele se tornou persuadido de que a forma Congregacional de governo era mais bíblica. Ele foi o principal porta-voz desta ala da Não-conformidade, e escreveu extensivamente para defender a visão.

Mas, ainda mais significante, ele foi o principal porta-voz da tolerância, tanto da forma Presbiteriana como Episcopal. Mesmo enquanto em Oxford, ele tinha a autoridade para acabar com a adoração Anglicana, mas ele permitiu um grupo de Episcopais adorar em salas do outro lado dos seus próprios quartos. Ele escreveu numerosos tratados e livros pedindo a tolerância dentro da Ortodoxia. Por exemplo, em 1667 ele escreveu (em in Indulgence and Toleration Considered [Indulgência e Tolerância Consideradas]):

Parece que somos um dos primeiros que, em algum lugar no mundo, desde a fundação deste, pensou em arruinar e destruir pessoas da mesma religião que a nossa, meramente pela escolha de algumas formas peculiares nesta religião.

Suas idéias de tolerância eram tão significantes que elas tiveram uma larga influência sobre William Penn, o Quaker e fundador de Pensilvânia, que foi um estudante de Owen. E é significante para mim, como um Batista, que ele tenha escrito em 1669, com vários outros pastores, uma carta de interesse para o governador e congregacionalistas de Massachusetts, suplicando-lhes para não perseguir os Batistas.


Ministério Pastoral

Durante estes 23 anos após 1660, Owen foi um pastor. Por causa da situação política, ele não era sempre capaz de estar num único lugar e com o seu povo, mas ele parecia carregá-los em seu coração, mesmo quando viajava de um lugar para outro. Perto do fim de sua vida, ele escreveu ao seu rebanho, “Embora esteja ausente de vocês em corpo, estou em mente, afeição e espírito presente com vocês, e em suas assembléias; pois espero que vocês sejam minha coroa e regozijo no dia do Senhor”.

Não somente isto; ele ativamente aconselhou e fez planos para o cuidado deles em sua ausência. Ele aconselhou-lhes em uma carta com palavras que são maravilhosamente relevantes para a luta do cuidado pastoral em nossas igrejas hoje: Rogo-vos que ouçam uma palavra de aviso em caso de aumento de perseguições, que provavelmente acontece por um período de tempo indefinido. Eu desejaria, visto que vocês não têm presbíteros regentes, e seus professores não podem passear publicamente com segurança, que vocês apontassem alguém entre vocês mesmos, que possa continuamente, à medida que suas ocasiões admitam, ir de casa em casa e se aplicarem peculiarmente aos fracos, tentados e temerosos, àqueles que estão prontos a se desesperar ou a parar, para encorajá-los no Senhor. Escolham para este fim aqueles que possuem um espírito de coragem e fortaleza; e deixe-os saber que eles são felizes, a quem Cristo honrará com Sua bendita obra. Eu desejo que as pessoas desse grupo sejam homens fiéis, e conheçam o estado da igreja; através disto vocês saberão qual é a estrutura dos membros da igreja, que será uma grande direção para vocês, mesmo em suas orações.

Sob circunstâncias normais Owen cria e ensinava que, “O primeiro é principal dever de um pastor é alimentar o rebanho pela diligente pregação da Palavra”. Ele apontava para Jeremias 3:15 e o propósito de Deus de “dar à Sua igreja pastores segundo o seu próprio coração, que os apascentariam com conhecimento e entendimento”. Ele mostrava que o cuidado da pregação do evangelho foi confiado a Pedro, e através dele, a todos os verdadeiros pastores da igreja, sob o nome de “apascentar” (João 21.15,16). Ele citava Atos 6 e a decisão dos apóstolos de se livrarem de todas as incumbências que haviam sido dadas a eles, para se dedicarem inteiramente à palavra e à oração. Ele se referia à 1 Timóteo 5.17 para demonstrar que é obrigação do pastor “trabalhar na palavra e na doutrina”, e à Atos 20.28 onde os responsáveis pelo rebanho devem apascentá-los com a Palavra.

E então, ele diz: “Não é requerido apenas que ele pregue agora e então descanse; mas que ele deixe todos os outros trabalhos, mesmo permitidos, todas as outras atividades na igreja, cuja uma constante atenção à elas o distrairia do seu trabalho, ao qual ele se entregou... Sem isto, nenhum homem será capaz de prestar contas do seu trabalho pastoral de uma maneira agradável no último dia”. Acho que seria justo dizer que Owen atendeu plenamente este desafio durante aqueles anos, sempre que a situação política o permitiu.

Owen e Bunyan

Não está claro para mim porque alguns puritanos naquela época estavam na prisão, e outros, como Owen, não. Parte da explicação é o quão abertamente eles pregavam. Parte é que Owen foi uma figura nacional com conexões com os altos cargos. Outra parte é que a perseguição não foi nacionalmente uniforme, mas alguns oficiais locais eram mais rigorosos do que outros.

Mas não importa a explicação disso, é notável o relacionamento que John Owen teve nestes anos com John Bunyan, que gastou muitos deles na prisão. Uma história conta que o Rei Charles II perguntou a Owen certa vez por que ele se importava em ouvir a pregação de um “funileiro” sem educação como Bunyan. Owen respondeu “Pudesse eu possuir a habilidade para pregar deste funileiro, vossa majestade, alegremente abriria mão de todo o meu aprendizado”.

Uma das melhores ilustrações da face sorridente de Deus por trás de uma providência carrancuda é a história de como Owen falhou em ajudar Bunyan a sair da prisão.

Repetidamente quando Bunyan estava na prisão, Owen lutou por sua libertação com todas as forças que ele podia usar. Mas não foi possível. Porém, quando John Bunyan foi libertado em 1676, trouxe consigo um manuscrito “de uma dignidade e importância que quase não podia ser compreendida”. De fato, Owen encontrou-se com Bunyan e o recomendou a seu editor, Nathaniel Ponder.

A parceria deu certo e o livro muito provavelmente, depois da Bíblia, é o mais publicado no mundo – tudo porque Owen falhou em suas tentativas de libertar Bunyan, e porque ele obteve sucesso em encontrar-lhe um editor. A lição: “Não julge o Senhor com débil entendimento, Mas confie nele para sua graça. Por trás de uma providência carrancuda, Ele oculta uma face sorridente”.

Morte

Owen morreu em 24 de Agosto de 1683. Ele foi enterrado em 4 de Setembro, no Bunhill Fields, Londres, onde cinco anos mais tarde o Pensador e “Imortal Sonhador da Prisão de Bedford” seria enterrado com ele. Foi decidido que os dois descansassem unidos, após o longo trabalho do Gigante Congregacional pela causa da tolerância dos batistas pobres na Inglaterra e na Nova Inglaterra. 


John Owen - Um Primeiro Olhar -


A maioria das pessoas – sejam pastores ou teólogos – não conhecem muito sobre John Owen.

Uma das razões é que seus escritos não são populares hoje . Mas outra razão é que não se é conhecido muito sobre ele – pelo menos não muito sobre sua vida pessoal. Peter Toon, em sua biografia de 1971, diz, “Nenhum dos diários de Owen foram preservados; e… as  cartas existentes nas quais ele revela sua alma são mui poucas, e reações aos outros,  registradas e pessoais, são breves e escassas... Temos que depender de umas  poucas cartas e um pouco de observações de outros para procurar entendê-lo como homem. E  estas são insuficientes para sondar as profundezas do seu caráter".

Assim, Owen permanece oculto como se estivesse através de um véu...seus pensamentos secretos permanecem só seus”  Penso que isto pode ser um pouco equivocado, pois quando você lê as obras mais práticas de Owen, o homem brilha através de uma forma que, penso, revela os lugares profundos do seu  coração. Mas, os detalhes de sua vida pessoal ainda são frustrantemente poucos. Você verá isto – e compartilhará minha frustração – no que se segue.

Owen nasceu na Inglaterra em 1616, o mesmo ano em que William Shakespeare morreu e  quatro anos antes dos Peregrinos viajarem para a Nova Inglaterra. Isto foi virtualmente no meio do grande século Puritano (aproximadamente de 1560 a 1660).

O Puritanismo foi, em seu cerne, um movimento espiritual, apaixonadamente preocupado com Deus e a piedade. Ele começou na Inglaterra com William Tyndale, o tradutor da Bíblia, contemporâneo de Lutero, uma geração antes da palavra “puritano” ser cunhada, e continuou até os últimos anos do século XVII, algumas décadas antes do termo “puritano” cair em desuso...O Puritanismo foi essencialmente um movimento para a reforma da igreja, para a renovação pastoral e evangelística, e para o reavivamento espiritual...

O objetivo puritano era completar o que a Reforma da Inglaterra começou: terminar a reforma da adoração anglicana, introduzir uma disciplina de igreja efetiva nas paróquias anglicanas, estabelecer a justiça nos campos políticos, domésticos e sócio-econômicos, e converter todos os cidadãos ingleses a uma fé evangélica vigorosa.

Owen nasceu no meio deste movimento e se tornou seu maior pastor-teólogo, à medida que o movimento terminou quase que simultaneamente com a sua morte, em 1683.

Seu pai foi pastor em Stadham, cinco milhas ao norte de Oxford. Ele teve três irmãos e uma irmã. Em todos os seus escritos ele não menciona sua mãe ou seus irmãos. Há uma única breve referência ao seu pai, que diz, “Desde a minha infância estive debaixo dos cuidados do meu pai, que foi um não-conformista durante todos os seus dias, e um árduo trabalhador na vinha do Senhor”.

Com a idade de 10 anos, ele foi enviado para a escola primária dirigida por Edward Sylvester em Oxford, onde ele se preparou para a universidade. Ele entrou no Queens College, Oxford, com a idade de 12 anos, e recebeu o seu Bacharel em Artes2 aos 16 anos e seu M.A. (Mestre de Artes) três anos mais tarde, aos 19 anos de idade. Nós podemos ter uma idéia de como o garoto era a partir de uma observação feita por Peter Toon, de que o zelo de Owen por  conhecimento era tão grande neste tempo que “ele freqüentemente permitia a si mesmo somente quatro horas de sono por noite. Sua saúde foi afetada, e mais tarde na vida, quando ele estava freqüentemente doente numa cama, ele lamentou estas horas de descanso que ele perdeu quando jovem” .

Owen começou sua obra para B.D. (Bacharel em Divindade), mas não pôde mais suportar o Arminianismo e o formalismo da igreja-alta de Oxford e retirou-se para se tornar tutor pessoal e capelão de algumas famílias ricas perto de Londres.

Em 1642, a Guerra Civil começou entre o Parlamento e o Rei Charles (entre a religião da igreja-alta de William Laud e a religião puritana dos Presbiterianos e Independentes na Câmara dos Comuns). Owen estava simpatizado com o Parlamento contra o rei e Laud, e assim, ele foi tirado de sua capelania e transferido para Londres, onde os cinco eventos principais de sua vida aconteceram nos quatro anos seguintes, os quais marcaram o resto de sua vida.

Cinco Eventos que Marcaram o Resto de Sua Vida
A. Conversão

O primeiro é sua conversão – ou sua certeza de salvação e aprofundamento de sua comunhão pessoal com Deus. É notável que esta aconteceu de uma maneira quase idêntica à conversão de Charles Spurgeon, dois séculos mais tarde. No dia 06 de Janeiro de 1850, Spurgeon foi parar, devido a uma tempestade de neve, numa Capela Metodista Primitiva, onde um leigo estava substituindo o pastor e pregou sobre o texto de Isaías 45:22, “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os confins da terra”. Spurgeon olhou e foi salvo.

Owen era um calvinista convicto com amplo conhecimento doutrinário, mas lhe faltava o sentimento da realidade de sua própria salvação. Este sentimento de realidade pessoal em tudo o que ele escreveu ia fazer toda a diferença do mundo para Owen nos anos vindouros. Assim, o que aconteceu num Domingo de 1642, é muito importante.

Quando Owen tinha 26 anos de idade, ele foi com seu primo ouvir o famoso Presbiteriano Edmund Calamy, na Igreja de St. Mary Aldermanbury. Mas Calamy não pôde pregar e um pregador rural tomou o seu lugar. O primo de Owen queria ir embora. Mas algo segurou Owen em seu assento. O pregador simples tomou o texto de Mateus 8:26, “Por que temeis, homens de pouca fé?”. Foi a palavra e o tempo apontados por Deus para o despertamento de Owen. Suas dúvidas, temores e preocupações, de que se ele era realmente alguém nascido de novo pelo Espírito Santo, foram embora. Ele sentiu-se libertado e adotado como um Filho de Deus. Quando você lê as penetrantes obras de Owen sobre a obra do Espírito e a natureza da verdadeira comunhão com Deus, é difícil ter dúvida sobre a realidade do que Deus fez neste Domingo de 1642 .

B. Casamento

O segundo evento crucial naqueles primeiros anos em Londres, foi o casamento de Owen com uma jovem mulher chamada Mary Rooke. Ele foi casado com ela por 31 anos, de 1644 a 1675. Não conhecemos virtualmente nada sobre ela. Mas sabemos um fato absolutamente impressionante que deve ter colorido todo o ministério de Owen pelo resto de sua vida (ele morreu oito anos após ela morrer). Sabemos que ela lhe deu 11 filhos, e todos, exceto uma filha, morreram quando crianças, e esta filha morreu quando era ainda uma jovem adulta. Em outras palavras, Owen experimentou a morte de 11 filhos e de sua esposa! É uma média de uma criança nascida e uma criança perdida a cada três anos da vida adulta de Owen.

Não temos nenhuma referência à Mary ou às crianças, ou à sua dor em todos os seus livros. Mas, apenas saber que este homem andou no vale da sombra da morte na maior parte de sua vida, me dá um sinal da profundidade de lidar com Deus que encontramos em suas obras. Deus tem suas formas estranhas e dolorosas de nos fazer o tipo de pastores e teólogos que Ele deseja que sejamos. 

C. Primeiro Livro

O terceiro evento nestes primeiros anos em Londres foi a publicação de seu primeiro livro.

Ele tinha lido a fundo sobre a controvérsia recente na Holanda entre os Remonstrantes (a quem ele chamava de Arminianos) e os Calvinistas. O Remonstrance foi escrito em 1610 e a resposta Calvinista foi o Sínodo de Dordt em 1618. A despeito de todas as suas diferenças, Owen considerou a Igreja-Alta Inglesa de William Laud e os Remonstrantes Holandeses como essencialmente um, em sua rejeição da predestinação, a qual para Owen se tornou absolutamente crucial, especialmente na conversão, a qual ele atribuía totalmente a Deus.

Assim, ele publicou seu primeiro livro em Abril de 1643 com o polêmico título, semelhante a um prefácio, A Display of Arminianism: being a discovery of the old Pelagian idol, free-will, with the new goddess, contingency, advancing themselves into the throne of God in heaven to the prejudice of His grace, providence and supreme dominion over the children of men [Uma Demonstração do Arminianismo: sendo uma descoberta do antigo ídolo pelagiano, o livre-arbítrio, com uma nova deusa, a contingência, avançando eles mesmos para o trono de Deus no céu, para o prejuízo de Sua graça, providência e domínio supremo sobre os filhos dos homens].

Isto é importante, não somente porque ele apresenta sua direção como um Calvinista, mas como um escritor público e controverso, cuja vida inteira seria tomada pela escrita, até o último mês de sua vida, em 1683.

D. Tornando-se um pastor

O quarto evento crucial naqueles anos foi o fato de Owen se tornar pastor de uma pequena paróquia em Fordham, Essex, em 16 de Julho de 1643. Ele não permaneceu muito tempo nesta igreja. Mas eu a menciono, pois ela fixou o curso de sua vida como um pastor. Ele sempre foi essencialmente um pastor, mesmo quando envolvido com administração na Universidade de Oxford e mesmo quando envolvido com eventos políticos de seus dias. Ele era tudo, menos um acadêmico enclausurado. Todos os seus escritos foram feitos na pressão de deveres pastorais. Há pontos em sua vida onde isto parece absolutamente espantoso – como, por exemplo, o fato dele poder continuar estudando e escrevendo, mesmo com o tipo de envolvimentos que ele tinha.

E. Dirigindo-se ao Parlamento

O quinto evento destes primeiros anos em Londres foi o convite, em 1646, para falar ao Parlamento. Naqueles dias havia dias de jejum durante o ano, quando o governador pedia a certos pastores para pregar na Câmara dos Comuns. Era uma grande honra. Esta mensagem catapultou Owen para os assuntos políticos nos 14 anos seguintes.

Owen chamou a atenção de Oliver Cromwell, o líder governamental (“Protetor”) na ausência do rei, e Cromwell é conhecido por ter dito a Owen, “Senhor, você é uma pessoa que eu devo conhecer”; ao que Owen replicou, “isto será muito mais vantajoso pra mim do que para você”.

Bem, talvez sim e talvez não. Com este conhecimento Owen foi lançado no tumulto da guerra civil. Cromwell fez dele o seu capelão e o levou para Irlanda e Escócia, para pregar às suas tropas e avaliar a situação religiosa nestes países.

Cromwell não somente apontou Owen, em 1651, como Deão da Faculdade Igreja de Cristo, em Oxford, bem como fez dele também, no ano seguinte, o Vice-Chanceler. Ele esteve envolvido com Oxford por nove anos até 1660, quando Charles II retornou, e as coisas começaram a ficar muito ruins para os Puritanos.  

 John Piper